sábado, 31 de maio de 2008

Pode um homem...


Diário de uma página do meu hoje


É possível, pode, a angústia de um homem ser tão imensa,oceânica,que ponha maré vazia sua praia adentro?


Pode um homem chorar diluvianamente para o dentro d’ele, que só reste secura de deserto para o seu fora?


Pode um homem rezar “insacrílego” como Ele em Getsêmani ? “ ...E começou a experimentar pavor e angústia. Ele lhes disse: “Minha Alma está triste a ponto de morrer. (...) E indo um pouco mais longe, caiu por terra e orou para que , se possível esta hora passasse longe dele. Dizia: “Abbá, Pai, tudo te é possível, afasta de mim essa taça! Entretanto, não o que eu quero, mas o que tu queres!”. Mc 33,36


Pode um homem no seu apelo de silêncio, gritar tão alto, que Ele o ouça?


Só os Meus Filhos e Ela que em amor mos deu para sentir o quão incompleto sou, na minha pretensa aspiração ao completo. Só eles, para me reduzirem à minha mais completa insignificância-grandeza de os amar na proporção que sou amado. Por isso não consigo ser forte quando fragilizado estou, por isso, da minha e das deles, fragilidades, o recomeço incessante neste acto tão profundamente límpido e misterioso que é a vida.


Escrito neste blogue não sabendo porquê, embora me seja necessário como a respiração de escrevê-lo. Aqui, estilhaçado de mim, a tentar apanhar os bocados vítreos da recomposição, depois da minha “Trancinhas” ter sido submetida a uma delicada operação neuro cirúrgica no S. João.

El Greco- Agonia de Jesus no Horto

sexta-feira, 23 de maio de 2008

AMAR...DREYER


Por vezes é obrigatório ser assim. Sem mais. Uma espécie de “vá para fora, cá dentro” porque sim. E o cá dentro deste alargado fim-de-semana foi o revisitar de Carl Theodor Dreyer e os seus “Gertrud “, e “Dia de Cólera”, bem como o magnífico documentário de de Torben Skjodt Jensen “ Carl Dreyer- O meu Ofício”. E só o não foi mais, porque o “Ordet” ( A Palavra) e “La Passion de Jeanne D’Arc”, já foram tantas vezes amados de olhar, que até tenho vergonha de dizer quantas.


Dreyer consegue emoção no eu de mim, o que não é pouco, pois o riso e o fastio da banalidade e mediocridade, não raro esbarram no filtro que impus no aproveitar do tempo. E vou sendo um polícia da minha temporal qualidade de aproveitar esse grande escultor, enquanto ele vai de maço e escopo talhando veias em mim.Envelhecer pateta e pateticamente, nunca.


Assim, Dreyer e a Fé, a sua serenidade inquieta, a seu arrastar interior de sentimentos contraditórios, as suas dúvidas da incomunicabilidade das almas, o isolamento existencial ou a solidão primária da existência, o amor, ou sonho feliz dele, mas também a renúncia como forma de salvação, a memória como sonho ausente-presente, e a esperança, mesmo no abandono de si, interrogam e interrogam-me como olhar atento e sensível. Temas tão actuais hoje como ao longo das décadas de filmografia deste grande realizador dinamarquês.


Numa época de tanto “detergente” cinematográfico, de tanto “ low-kick” cinéfilo, de tanto efeito especial para especialmente enganar olhar e sentido de espectador, de tanta imagem por segundo vulgarizada de cinema de Centro Comercial, Dreyer, é-me essencial na minha arte de respiração, como o são Visconti, Bergman, Rossellini, Antonioni, Fellini, Max Ophüls, Kazan, Renoir, ou Allen.

Pronto...gostos não se discutem. Mas pelo menos, deixem-me rir levemente deste ditado.

DE GERTRUDE

(Entra Axel Nygren (amigo de Juventude))

Gertrude: - Aqui vivo como uma eremita, esquecida, apagada. È assim que me convém. Preciso de solidão e liberdade.

(Axel e Gertrude sentam-se num banco de madeira. Ela pega-lhe ternamente na mão)

Gertrude : - A nossa amizade sobreviveu ao tempo (30-40 anos)

Axel: - Uma amizade que nunca foi amor.

Gertrude: - Mas tu foste para mim um grande amigo...

Axel: - Ainda és jovem, a tua pele é branca e lisa.

Gertrude: - Vou ter mais rugas e a minha pele empalidecerá!

(Ela entrega-lhe as cartas que ele lhe escreveu ao longo dos tempos, e ele queima-as na lareira)

Axel: - Nuca pensaste em escrever um poema

Gertrude: - Só um . ( Lê-o)


“ Olha para mim.

Não sou bonita pois não?

Vê-se. Mas Amei.


Olha para mim.

A Juventude evaporou-se?

Claro. Mas Amei.


Olha para mim.

Estarei ainda viva?

Não. Mas Amei."


Gertrude: A Gertrude com 16 anos escreveu um verdadeiro Evangelho de amor.

Axel: - Lembras-te das tuas palavras : “ A única coisa que importa na vida é amar, amar e nada mais” . Continuas com a mesma opinião? Não estás arrependida de nada?

Gertrude: - Mantenho o que disse. Não me arrependo de nada. Nada mais há na vida do que a juventude e o amor. Axel, um dia às portas da sepultura, debruçar-me-ei sobre o meu passado e poderei dizer a mim própria: sofri muito, enganei-me muitas vezez, mas Amei.

Axel: Pensas muito na morte ?

Gertrude: Já encomendei a minha sepultura e até já tenho o epitáfio.

Axel: O teu nome, suponho?

Gertrude: Não. Lá só escreverão duas palavras : “ AMOR OMNIA” . O Amor é tudo. Sim, o Amor é tudo. E dise ao jardineiro para não plantar nada, só erva. E na Primavera nascerão anémonas. Se passares por lá, colhe uma e pensa em mim e considera-o como uma palavra de amor que foi pensada e nunca pronunciada.

É melhor ires...


( tradução livre de um dos diálogos do filme. Protagonista: Gertrud- Nina Pens Rode)

(Como sempre, ou quase sempre o grande cinema e, neste caso Dreyer, pode ser adquirido em DVD, na excelente "Costa do Castelo Filmes")

sexta-feira, 16 de maio de 2008

MimEu



Comovido, fixo-te menino de mim no que fui, sou

Não me consegues enganar. O mesmo sorriso, a mesma ânsia d’olhar

A mesma boca aberta ao fascínio da respiração

Fina tessitura te reúne ao meu eu uno e disperso

Acompanhas-me desde sempre na criança que fuisou, intemporal, por isso

Assim envelheço sem pressas, conduzindo-te criança de mim em suave declive

Por caminhos, veredas, marítimas enseadas, campos sonhados de papoulas

Fui...Sou...Eu...Mim no tempo que flui , Existente Instante que nele flutua

Ecce homo.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Doce (nte) Aprendizagem


Lembro-me dele .


Lembrar-me-ei sempre com nitidez cristalina! O Bento!


Ano lectivo de 1983-84, Celorico de Basto, no meu período de Professor "Vá para fora cá dentro! "; dois anos de um contrato plurianual de "roupa limpa de ida e roupa suja de volta", como Professor provisório de Português e História.


Foi aí que o conheci , ao Bento. O Bento era um miúdo de 11 anos, olhos expectantes, curiosos, ávidos de conhecer, louro, ladino, em suma, um "puto giro", entre aquilo que poderei definir, estilo "menino Jesus" ou como costumávamos chamar na minha Sé do Porto, a miúdos como ele, estilo, "caga-tacos". Nas aulas uma atenção extrema, por vezes, a boca aberta de espanto à novidade da aula de História do 6.° Ano, uma admiração vidrada nos olhos pelo seu Professor do Porto, que lhe trazia o sonho da cidade que ele nunca tinha visto, como nunca tinha visto o mar.


Raramente participava e quando o fazia, empinava o tronco, esticava o pescoço como que a ganhar importância e disparava a resposta ou a pergunta "traiçoeira", como aquela que me fez com vozita esganiçada, desafiadora, com trajeito celoricense , acerca de um qualquer gráfico de pluviosidade " Ó Professor, antão chove em milímetros ?? ".


O Bento, que no inverno cheirava a lenha, que durante todo o ano apresentava as unhas negras da terra que amanhava com o pai fora das aulas, que nos cadernos era difícil distinguir a caligrafia das nódoas, mas que sorria, de um sorriso estranho, mas belo: era um sorriso radioso, solar, mas suave, tão diferente de outros dois sorrisos com que mais tarde me vi confrontado, sorrisos "bovinos" ou "amanteigados" !


Um dia ao escrever o sumário no quadro, reparei num esgar de dor no seu rosto ao tocar com a mão esquerda no rebordo do quadro. Que não tinha nada! Que era uma "feridinha" num dedo! Um pano, que só a muito custo, posso chamar pano, já que farrapo é uma expressão mais apropriada, uma cor indefinível, entre o negro e qualquer coisa que já foi branca, envolvia o dedo indicador esquerdo do Bento, que parecia ter outro dedo dentro, pelo diâmetro. " Foi a segar palha para o gado, mas o meu pai, diz que não é nada e a minha mãe pôs-me este "penso"".


Oito dias com este "penso" e os meus piores pressentimentos a tomarem forma: uma enorme infecção a alastrar naquele indicador do Bento! Quis ver, mas pareceu renitente, depois lá deixou desamarrar o nó que envolvia o farrapo. Quando lhe toquei o dedo,ouviu-se um ai abafado, logo seguido de "não foi nada!". Um dedo? Uma batata amarela e branca de infecção e pus, um golpe entreaberto de cerca de 3 ou 4 cm! Mandá-lo ao Centro de Saúde ? Fazer aquilo que me estava a mandar o coração ? já tinha tirado um curso de "primeiros socorros de humanidade" no Marco de Canaveses, no serviço militar, em Nelas, continuar a prática ali, algo me ordenava! Não era enfermeiro, não era médico—mas era Professor a fazer a aprendizagem de ser humanidade em gente! " Vou-te fazer o curativo, mas isto vai doer, Bento ! " . Olhou-me entre surpreso e ofendido, por eu duvidar da sua qualidade de Homem : " Eu não tenho medo! Era o que faltava, não sou nenhum "cachopo" ! ".


Chamei a funcionária para me informar da farmácia da escola. Que não havia, ou melhor, havia, mas era como se não houvesse, porque não havia nada...alguém tinha...tinha acabado! Percebi! Puxei da carteira, tirei não sei que nota, e mandei um aluno à farmácia no centro da vila buscar álcool, água oxigenada, tintura, algodão, gaze,ligadura, pomada cicatrizante. Era perto e o miúdo voou! Na mesa do professor, eu, o Bento e a parafernália curativa. Na turma a estupefacção, misturada com o mistério e admiração." Vamos lá Bento, coragem! " . Riu com benevolência! Ao primeiro aperto do dedo, o que aconteceu, não posso contar por decoro higiénico, apenas e só, que a minha gravata e casaco ficaram estilo "arte moderna" , um pouco à pintura de Jackson Pollock! Continuei o "torniquete" até o dedo do Bento ficar com um tamanho aproximado de um dedo indicador! Então, de soslaio, reparei que o Bento se tinha virado para o quadro e sem um som, deixava correr as lágrimas de dor, para a Turma não ver o "cachopo" que queria ser Homem chorar! Fiz-lhe uma festa no cabelo louro e crespo. Fungou e esboçou um sorriso! Continuei o tratamento até o Bento ter um curativo bem bonito, ou pelo menos, uma dedeira de ligadura e adesivo, bem como um rosto seco de homem outra vez- que ali naquela terra ainda era assim!


Imaginam os leitores o resto desta história ? Claro! Nas aulas subsequentes, a primeira coisa que o Bento fazia quando entrava na minha sala era levantar o dedo e dizer:" Professor, olhe o dedo!" " Professor não se esqueça do curativo!". E as aulas de História começavam com dez minutos de enfermagem e, todo o tempo do mundo de risos e felicidade! E o dedo do Bento foi melhorando, até só ficar um fio de recordação- cicatriz que fechou uma ferida, mas que abriu corações em ternura!


Tornei-me o ídolo do Bento. A sua alegria quando me via, era proporcional à minha pelo seu sorriso e força de vida! Certo dia, à minha espera na porta da sala de professores quando já tinha tocado para entrar. " Olá "segador", estás bom?". Bruscamente arranca-me a pasta. "Por favor, Professor, deixe-me levar a pasta?!". " Dá cá isso, pá!" - atirei , mas já corria pelo corredor, rindo,como só aquele "filho da mãe" sabia rir, tendo ainda tempo para um " Não dou, e não seja mau! ". Percebi então que aquele puto me queria agradecer do fundo da alma dele, a minha atenção o meu simples gesto, o ter gostado dele, o tê-lo olhado como gente e, aquilo era a sua paga, o seu acertar de contas, a sua partilha de ternura. Ali não havia "graxa", nem subentendidos, havia uma pureza de sentimentos, um "gosto de ti Professor!", que se consubstanciava num gesto: o levar-me a pasta para a sala nos dias das aulas de História. A turma sabia, a turma aceitava, era a pasta do Bento que lhe pertencia por natural direito!


Mais tarde, na minha vida de Professor, outras dádivas de gratidão tive por parte dos alunos, principalmente em Recarei-Sobreira, mas isso, poderá ser objecto de outra crónica. Por onde andarás Bento? Terás ainda a cicatriz no dedo? Que curativo fiz na tua alma? Sabe, que me ajudaste a crescer, e hoje nesta escola de subúrbio onde trabalho, não há dedos a curar nos meus alunos, há sim em alguns,feridas profundas d’ alma e, essas não se curam com álcool, nem pomada, porque muitas vezes fecham com o mal lá dentro e é tão difícil tratá-las!


(Existente Instante)

quarta-feira, 14 de maio de 2008

LÍNGUA DE SILÊNCIO

(Blue Velvet)

LÍNGUA DE SILÊNCIO


Respiro este maravilhoso, estranho silêncio...

Sinto que me fala uma linguagem marítima e sensual.

Amo-o com os olhos carregados de chegada lonjura,

aspiro-lhe o cheiro acre e forte, feminino...

Ouço-lhe a voz ondulante de melopeia infantil,

Liquefaço-me de sonho para o amplexo desejado...

Refreia o meu desejo com a sua canção terna e ritmada do desfazer-se em espuma...

Um grande amor não se possui...

espraia-se suavemente em marulhares sucessivos de marés!

O meu coração sonda o seu silêncio sussurrante...

Capto a melodia "sou de quem me quiser amar no afogamento cego de mim!” .

Que sim...menino líquido que sempre fui !

Sorriu-me...

Uma onda mais rebelde veio selar o nosso pacto de amor

para sempre.

(Existente Instante)

quarta-feira, 7 de maio de 2008

VAMOS CONDUZIR UM FERRARI?!

A mesma turma do 8º Ano. Asas, asas para voar e eles voam! Há quem diga, que é como se lhes dessem um "Ferrari para as mãos" e eles não o sabem conduzir! Há colegas nossos quem nem Smart!
Ensinem-lhes com paciência, a eles, à miudagem e vão vê-los a conduzir!
Um trabalho realizado por um grupo de seis alunos desta turma sobre a Irlanda, a ser apresentado à escola na próxima Sexta-Feira Dia da Europa. Estão todos vaidosos e eu vaidoso por eles, pelo seu trabalho e pela alegria de os ver "conduzir"!
Já agora...que tal uma Guiness a ler Yeats acompanhado por música dos Dublinners?

segunda-feira, 5 de maio de 2008

E...ESCREVERAM

Reis, palácios, pessoas vestidas a rigor, formalidade, cortes, luxo, elegância, o Universo debaixo dos nossos pés, verde e amarelo, classe, valor, ironia, entrada, nível, tudo a dançar, festa, medo, poder, majestade luz, confiança, força, contentamento, campestre, brilho, cores, espelhos, água a jorrar.

Lully, Marche pour la Cérémonie des Turcs da Ópera Le Bourgeois Gentilhomme


Melancolia, tristeza, ilha, lonjura, ondas mansas, estrada sem ninguém com curva ao fundo, lágrimas, sossego, serenidade, paz, envolver, paixão, perda, ida, humildade, história infeliz, chuva, floresta, delicadeza, mal-estar sem fim, tragédia, solidão, luto, Igreja, escuridão, sofrimento, algo muito forte, recordação, um pato de assas brancas num rio negro fugindo do perigo, mesmo sabendo que vai morrer, calmaria, sombra, coisas que já passei, dor de alguma coisa, caminho longo Albinoni, Adágio



Tenho uma lágrima para te dar, quero-te fazer uma festa, deixas? Queria tanto perder-me no teu olhar! Bem estar interior, tranquilidade, céu azul e brilhante, areia, mar calmo, árvores cheias de frutos, jardim sem fim, bela adormecida, história de amor, mão dada, vestido cor-de-rosa, arpa, vem comigo, vamos fugir, vamos ser felizes noutro lugar, príncipe e princesa, borboleta, formiga, campos, paixão escaldante, amizade, praia cheia de gente e eu em solidão, pensamento, jardim de suavidade, para ser sincero, encontro, mais vale só do que mal acompanhado, macio, meiguice, lentamente, cor-de-laranja, uma história para contar, verde, fresco, embalo de bébé, quando uma mulher dá à luz e Vê o filho pela primeira vez, um favor, descanso, um adeus, amanhecer, um dado a balançar Bach, Concerto para Cravo BWV 1056- “Largo”



Praia deserta, amanhecer, quero ser arquitecto das estrelas, Mãe, Pai podemos conversar?
magia, grinalda em cabeça de mulher, família de veados, rios, duas cores misturadas, casamento, dourado e branco, passeio pelo campo de flores amarelas, crianças, atenção, fim feliz, encanto, nuvens, alturas, aconteceu, apareceu algo, fascínio, suspense, levantar, despedida, perda, nem triste nem contente, verde-castanho, emoção, momento especial, beleza de castelo, lembra cor azul, leve, leve, alguém que nos deixa sem palavras, surpresas, pedido, amor escondido, breve adeus, perdoas?

Pachelbel, Canon em Ré


E escreveram mais sobre Charpentier, sobre o Aleluia do Haendel, sobre a Primavera do Vivaldi.Mas mais não digo, guardo no meu arquivo lado bom do coração.

(o trabalhinho sobre Bach é "meuzinho", com interpretação desse genial Gustav Leonhardt)

PORQUE NÃO...

Acontece. No caminho apeado para a escola, numa quarta-feira. Uma turma normalíssima,uma aula de Estudo Acompanhado de reforço da minha disciplina e da unidade didáctica sobre o Barroco, que também sou “filho de Deus”, e esta área curricular não disciplinar não pode ser só suplementos alimentícios de Inglês ou Matemática, ou outras disciplinas, deixando humildemente a minha para calendas gregas. Enriquecimento musical depois de nas aulas de História terem visto filmes e photo story sobre a arte barroca, até porque nunca deixo passar nas minhas aulas a importância da música como reflexo de uma época, de um quotidiano, de uma expressão histórica.

Assim no Creative, uma selecção pedagógica e conhecida de música barroca, que ia desde os conhecidos Vivaldi e a Primavera da Quatro Estações, Albinoni e o seu Adágio, o Cânon de Pachelbel, Lully, Charpentier do Te Deum, o Delalande, Bach, Haendel. Por segurança, um CD, não fossem as minhas colunas amplificadas falhar (como veio a acontecer - ah! A experiência de anos feita!) e mais umas imagens, para num diaporama lhes mostrar que as características gerais da arte barroca também se podiam aplicar à música.

Tudo “como manda a lei” , bem esquematizado na minha cabeça, sem grelhas, nem “timings”, nem previsões de reacções, porque “burro velho” ainda aprende, e sensibilização na aula de História à audição de música tinha sido feita com calma, entusiasmo e humor. Depois, depois, um sorriso interior pela lembrança dessa cena terrível e perturbadora do “Blackboard Jungle” – “Sementes da Violência” em que os alunos destroem a grafonola e a preciosa colecção de vinis de Jazz do Professor que tão amorosamente procurava cativar aquela turma. Sorriso, porque agora os meus alunos mesmo que quisessem mimar, iam ficar aflitos a procurar os Monkeys, os Ogg Vorbis, os Mp3 e mesmo saber onde estava o Creative de tão pequeno que é. Depois ainda, sendo Professor, sou um “destruidor implacável”! Gosto de destruir certezas feitas, ideias pré-concebidas, formatações de gosto. Assim iria ser música barroca e pronto. Depois poderia discutir com eles porque não gosto mesmo nada do Tom , do Bill , do Gustavo e porque gosto de outros “hotéis que não em Tóquio”. Zangadas elas, felizes eles, mas ambos surpresos por um “Prof”, saber quem eram os “bicharocos” um pouco andrógenos que elas tanto gostam e eles tanto odeiam ( ou fingem odiar)! Iria ser Bach, Vivaldi, Haendel, etc. (que acharam pelo retrato terrivelmente feios) e depois falaríamos.

E no caminho para a escola, entre o meio acordado e a “cama atrás”, a ideia. Mandar às malvas o planeado! Porque não!? E se eles reagem mal? E se recusam? E se aquilo se transforma numa galhofa universal? E não seria ridículo? Bem, uma vantagem…os dois primeiros tempos da manhã em que o motor de arranque de muitos alunos por muito que se manivele, tarda a carburar, seria um ponto a meu favor.

Início da aula, aparelhagem pronta, sensibilização feita e, na decisão da caminhada, nada de imagens a ilustrar a música. Seria a música a ilustração de si própria. Depois um pedido e a surpresa geral. Querem experimentar uma coisa? Porque não deitar a cabeça entre os braços e deixar a música que vão ouvir fluir pelos vossos sentidos? Porque não tentaram “sentar-se” na melodia e deixarem-se ir à desfilada, à aventura, ao sonho? Porque não conversarem com ela, deixar que ela vos diga alguma coisa, algum sentimento, alguma ideia, imagem? Porque não? E depois…depois, porque não, no fim de cada trecho musical, escrever sobre. Sobre o ouvido, o sonhado, o dialogado, a imagem, a conversa interior? A maluquice, o sem sentido do sentido? Não levantam mesmo a cabeça enquanto o extracto de música estiver a tocar, okay? Podemos dormir? E se adormecermos? Questionaram alguns - Tudo bem, podem dormir na aula! Riram. Tentamos? E o Prof O que faz? Também podia fazer o mesmo que nós! Porque não? Mas não preciso de deitar a cabeçorra, senão dormia mesmo.

E aconteceu ! O quê? Escreveram e do bom e do bonito! E gostaram! E no fim, vários alunos: O Prof, pode gravar-nos este disco? Depois...depois fiquei feliz e prometi-lhes escrever este post.

Agora andamos às voltas e maravilhados com a música da Irlanda e o Dia da Europa: Eles são... Os Corrs, Os Cranberries, a Sinead O’Connor, The Dubliners, Os Pogues, and so on! Lembro-me de cada uma, que como se diz na minha terra ...até parecem duas!

Suspensa Espera...

Afago de Suspensa Espera

Resposta ao Imperador


Perguntas-me o que vim eu encontrar

acima das nuvens no cume da montanha

É algo que só na solidão se pode descobrir

E mesmo que quisesse não teria palavras para o exprimir

(Tao Hang King)

Reflexos


Envelheço. Estas límpidas águas

reflectiram já um outro rosto

Ninguém me pode devolver esse fulgor

Passado. Para quê turvá-las?

(Po Chu Yi)


Alquimia



Sono de Primavera


Um chilrear de pássaros me chega ao ouvido

Submerso ainda num sono de primavera

Recordo a chuva e a ventania da noite passada

Pergunto-me quantas flores terão caído

(Mong Hao-Ran)


Suspensa Espera. Por vezes precisa, necessária, respiração de bafo no vidro. Leve afagar de centro para a periferia,depois do refazer periférico do nós. O orvalho cristalino dos sentidos num leve, escorrido e suave deslizar para a madrugada que se aproxima. Suspensa espera... necessária, precisa, na vulcânica violenta lava dos dias.
(Existente Instante)

( fotos minhas, versão dos poemas chineses de Jorge Sousa Braga)

sábado, 19 de abril de 2008

A AULA ACONTECE!? PAIXÃO PRESENTE!


A aula acontece. Salvo erro foi Sebastião da Gama que escreveu isto no seu Diário e, tenho para mim, quer na minha experiência de quase trinta anos de Professor, quer na dos Grandes Professores que tive, que essa é uma verdade. Ainda poderei por em dúvida se as grandes aulas que tive ( e lembro-me delas ainda hoje, porque será?), eram mesmo de acontecer, mas que um milagre acontecia nelas, disso não duvido. Mas afinal que milagre era esse? Simples: o Professor deixava a aula acontecer. Havia um qualquer pretexto, um qualquer desencadeador da acendalha, um fractal momentâneo e eles captavam-no para afagar a crina do cavalo à solta e a aula ia por aí fora, por vezes num riso delirante, num fascínio de contador de histórias à ancião em gruta pré-histórica, ou mesmo num humor sem freio, quando não um discorrer fora da “matéria” , como gavião em altitude andina.


Nunca mais hei-de esquecer esses Professores que deixavam a aula acontecer! Os meus olhos fascinavam-se tanto , mas tanto, que olhando para eles me esquecia deles e partia à desfilada, no dorso das palavras deles, no encantamento do verbo d’eles.


E todos eles com a mesma característica. Apaixonados, terrivelmente e irremediavelmente Professores, pela força telúrica, pela transfiguração que impunham ao que diziam, ao saber que propunham transmitir, pela reflexão que procuravam induzir, pelo humor franco, límpido, mesmo quando picaresco, ou irónico. Depois outra coisa comum em todos: raramente se sentavam e sobretudo uma coisa fascinante falavam com o corpo todo, com uma expressividade que ia do olhar, das mãos, à forma como se deslocavam. Os grandes Professores que eu tive eram especialistas em expressão, em dança corporal, em oratória, mas especialistas naturais, porque hoje sei-o hoje, essa naturalidade advinha de uma qualquer ânsia interior, de vontade de compartilhar paixões e emoções. E vi Professores emocionados, na minha vida de aluno. Mais ainda...a voz, essa voz que passava de maviosa a trunitronante, de amorosa a ríspida, de desalentada a esperançosa, num ápice intersticial da leitura de um texto, de um comentário, na análise de uma personagem. Todos os meus Grandes Professores, independentemente dos decibéis, tinham uma voz expressiva, cantabile, cativante, estilo à molto e solto vocce!


Assim, em muitíssimas aulas desses meus Professores, o tédio andava arredio, e se espreitava, era nuvem de pouca dura, porque a paixão do tema, a piada a preceito, a chamada de atenção com categoria irónica, recolocava solarenga a “lição” no seu devido lugar.


Incomoda-me imenso a expressão que sistematicamente vou ouvindo dos nossos alunos, mesmo aqueles que são bons, que as “aulas são uma seca”. Mas as aulas têm de ser todas interessantes e atraentes? Claro que não, mas porquê serem com os mesmos docentes “serem uma seca?”. Cobaias para a experiência? Os meus próprios familiares, sejam filhos, sobrinhos, excelentes, bons ou médios alunos.


“ Experimenta estares 90 minutos praticamente a ouvir ler o livro e a fzer sublinhados no mesmo”. “ Sabes o que é ter um Professor sempre com a mesma voz durante toda a aula, chata, aborrecida, parece que a aula nunca mais acaba”. Imaginas ter que escrever no Caderno Diário, o mesmo que está no Manual, depois de a Professora ter dito o que no manual está, e ainda por cima sobre Geologia, na sala de Geologia com milhares de rochas nas vitrinas?!”. “Sabes lá o que é a tortura de ouvir ler Lusíadas de uma forma que aquilo parecia um funeral! ”E só poder dar aquela interpretação, porque se apresentamos outra, rodeiam,rodeiam, tentando dar-nos a volta?!”.


“E uma aula só com cálculos e números no quadro escritos pela Professora sem direito a questões e quando feitas o olhar a fuzilar-te, por as fazeres? Parece que queria mostrar que sabia fazer, Pai!”. “Imaginas acetatos e mais acetatos, para passarmos os acetatos?”. E Power Point, só com texto, por animar e com o que está no manual,até as gravuras?”. Ó tio, parecem “monos”, sentam-se e aí vai disto...falam, falam, que até quase que adormeço.Depois gritam que isto e aquilo, que estamos distraídos, que não participamos. E quando participamos, somos desordenados, se não participamos, que isso conta para a nossa avaliação. O que é participar, Tio?”.


Enfim , desabafos que vou ouvindo e, inacreditavelmente fazem-me lembrar os mesmos sentimentos que perpassavam o meu espírito em muitas aulas de meus Professores ( Não os Grandes) do Alexandre Herculano, somado a lembranças de intempéries de mau génio, de gratuitidade de tratamento, de desprezo absoluto, que ia do insulto fácil do “asno, ao burro”, passando pelo estúpido, do “não haveis de ser ninguém” , do riso cínico na entrega do teste negativo, até ao “atiranço” à cabeça do Dicionário, a canada indiana, ou o “puxanço de pavilhão auricular até ao chão com unhas de rapina, por vezes até sangrar, só por não saber uma Ópera de Donizetti, o celebérrimo castigo à “Pinóquio”. E os ataques de histeria do “Rapa”? E as intermináveis aulas de leitura linha por linha, vírgula por vírgula, do manual do Fins do Lago, que tornavam a História das disciplinas mais desérticas, secas e exaustivas que se possa imaginar, principalmente na voz terrivelmente monocórdicas de um “Fortes”. E as aulas entre o “tralharouco” e livresco-sonolento de um “Roda-Vinte-e-Quatro” ?


Claro, que alguns colegas mais púdicos, podem não estar a gostar, principalmente de forem adeptos de uns “modernaços” que chamo os “Facultés” ou “Universités” escolares, ou seja, indivíduos que não sabem o que é uma escola, uma aula, o ser professor do ensino básico, um miúdo do século XXI , ou que o são mas, que gostavam de chegar a “Facultés” e não conseguiram, e atacam em toda a linha a “modernidade “ educativa, propondo em troca uma revisitação ao passado , a métodos e hábitos do passado, quase numa fossilização, numa cristalização de ideias e ideais que magoa as inteligências. Depois falam culturalmente, e falam bem , numa espécie de “Cultura Inculta”, e debicam aqui, picam acolá, remexem acoli, e quando se espreme o seu pensamento, muito pouco.


Querem vos confesse uma coisa? Já mete náusea o termo “eduquês” e a maioria das pessoas que o usa nem sabe o significado da palavra e no contexto em que é usado, não sabem sequer do que falam. Ignorância pura e sobretudo desonestidade intelectual quando se ataca Rousseau, Dewey, Freinet, Montessori, Neill, ou Bettelheim, ou mesmo João dos Santos, sem ter lido uma linha da obra destes mestres, ou no mínimo lendo livrinho do estilo “ Pedagogia para TóTós” sobre os mesmos., ou mesmo assimilado seja o que for da evolução do trabalho magnífico desta gente.


Já agora, li os artigos e livros destes “Facultés”, que é para não me acusarem de má- fè.Guardo-os para Memórias Neutras.


Ainda à pouco, se viu algo impensável: o desconhecimento mais absurdo , com comentários larvares de ignorância, geralmente disfarçada em alguns colegas de arrogância, sobre o Projecto da Escola da Ponte e do seu sucesso no Mundo. Mas não! Tudo o que desconhece, tudo o que não seja igual ao nosso “mundinho”, é mau, é mentira, é suspeito! Se isto não fosse trágico dava-me vontade de rir, confesso.


Tenho para mim que na formação inicial docente, e mesmo nos primeiros anos de vida profissional a formação em “Histórias de Vida” em Oníricas, em Diarística Docente, Colocação de Voz, poderia ajudar os jovens Professores na sua formação. Porque defendo isto? Simples! Estou convencido, que se é melhor Professor se conseguirmos ter um diálogo com a nossa História Pessoal, com o “nosso “ Chagrin d’école”, com o nosso passado como alunos. Sim , um ajuste de contas, franco, objectivo, sentido com o nosso ser menino e adolescente de vinte, trinta, quarenta anos atrás e o ser menino numa escola real, dolorosa nuns, mais feliz noutra, para o aconchegarmos no nosso presente, no nosso ser profissional. Se continuarmos a recusar essa revisitação, se gostamos de frases feitas do estilo “Se sou hoje assim a todos os meus Professores o devo” – Mas sou como? Que parte de mim deve aos bons e a outra parte aos menos bons? ( Gostaram dos insultos, da ditadura, do medo, da dor que deveras sentiram , mas agora escondem fingidores?-Desculpem mas não sou adepto do sado-masoquismo) se “continuarmos a esconder que muitos de nós eramos alunos fraquinhos, distraídos, cabulazinhos, e até indisciplinados,alguns uma espécie de “Cancre” ( à frente explico) e continuarmos no embuste de “eu não era assim” , mesmo tendo sido, então teria que vos explicar onde nasce muita tensão e desilusão docente. ( não , não é para deixar os alunos fazer tudo o que eles querem, é precisamente o contrário e, como estou a escrever para Professores, não explico, porque meia palavra basta).


E a respeito de tudo isto, os dois autores foram referenciados no Blogue do Matias Alves ( onde poderia ser?). Um apressei-me a “amazonar-me” dele por quase 30 Euros e é um livro verdadeiramente extraordinário, daqueles livros, como dizia Fyn, Livros AH! Daniel Pennac, a mostrar que foi um “Cancre” escolar e que o Seu Chagrin da Escola, não o fez menos pessoa e menos escritor e a isso obstou a garra, a ternura, o amor de alguns Professores que nele acreditaram! Está-me a deslumbrar e a humanizar-me a reforçar-me no meu caminhar escolhido.

O Outro que foi referido pelo MA, é uma parte de um fabuloso livro, de Carlos Lomas, um dos melhores livros da minha Biblioteca sobre a escola e a docência, que já possuia vai para uns tempos, embora me visse grego para o encontrar. Um livro que não sei descrever, porque é um livro fulgor, refulgente! Quase 500 páginas de memórias da escola e das aulas em prosa, em poesia, e , para os que me conseguiram ler até aqui, e não gostaram, só um aviso: olhem que as memórias da escola, de aulas e de alguns Professores de : Albert, Neruda, Marcial, Canetti, Machado, Quevedo, Vargas Llosa, Gomes Ferreira, Unamuno, Saramago, não são lá muito coloridas e prazenteiras!

Mas hei-de escrever das minhas e boas memórias, dos tais Professores que guardei na alma para memória presente e futura!

quarta-feira, 16 de abril de 2008

PAZ?! OLHO NELES! MUSCULAÇÕES!










Quase noventa professores se não me engano. 14 Abstenções, 4 votos contra, o resto a favor do memorando da Plataforma Sindical. Não sei se foi esmagadora ou não, substantiva foi-o de certeza.

Votei a favor e confesso que não sendo sindicalizado, sempre estive em lutas sindicais, nomeadamente na de 89, em greves de sindicatos variados e na de dois anos atrás, com ameaças de processo disciplinar, na qual outros colegas, hoje muito activos se encolheram. Coisas da vida e curtas memórias, também fazem parte da vida docente.

Excelente o desempenho dos colegas delegados sindicais, conciliando calma , explicação e por vezes legítima indignação. Todos os professores presentes puderam dizer da sua justiça, do seu azedume, das suas preocupações. O colega da Fenprof, lúcido e perspicaz, por calejado nas pelejas sindicais. A explicação óbvia que o não entendimento teria levado a becos sem saída e a situações gravosas de imposição pela força por parte da tutela de um modelo que em algumas escolas já estava em fase adiantada e “papista” de implementação. A chamada de atenção, para outros problemas gravosos que poderão afectar a classe e “pasme-se” o alerta para determinados colegas blogosféricos, que com intuitos mais ou menos escondidos de promoção pessoal, ou ressabiamento de injustiça profissional, têm contribuído para o ataque aos sindicatos e numa pretensa união da classe, dividi-la. Sem citar blogues, o delegado sindical, mostrou quem é blogosfericamente informado, e que “não anda a dormir na forma”.

A minha intervenção em poucas palavras:

- De acordo com o colega quanto a meia dúzia de blogues, inanarráveis nos seus objectivos, no seu âmbito, na sua inanidade de construção de positividade docente, embora encapotados de “frentismo” populista docente. Expliquei ainda o que entendia por “docentes blogues gelatinosos”, ou seja , aqueles cujos autores dizem e afirmam uma coisa, para depois, poucas postagens depois, por informações privadas, ou por reacções, se colocaram do lado de quem “der mais”, que mais “barulho fizer” ou seja do politicamente correcto e maioritário. (Uma reflexão minha, irónica: prefiro o meu e de outros colegas Professores, mais ternos e açucarados, que se há-de fazer?).

- Que é necessário (re)centrar a luta e a negociação nos temas já citados:

- Revisão do ECD até onde for possível, embora dissesse que no meu mundo de realidade, acreditasse que a anulação da divisão da carreira , seria impossível conhecendo-se o poder e a inflexibilidade por vezes bem anti-democrática da maioria. Talvez fosse possível aos Sindicatos esgrimir em Tribunal, o erro da inconstitucionalidade detectada pelo Tribunal Constitucional da impossibilidade de concurso para Titular de professores dispensados de funções lectivas, por razões de saúde. Não sendo possível, sugerir nas negociações a abertura de concursos para titulares para os colegas dos antigos 7-8-9º Escalões, nos dois próximos anos. Esperemos que seja o meu mundo de sonho a vencer!

- Na Avaliação de Desempenho, e na impossibilidade do modelo actual ser modificado, simplificar ainda mais as fichas existentes, e sobretudo negociar com o Ministério, a não necessidade de Observação de aulas, a não ser por pedido dos colegas, por avaliação negativa ou Excelente. Colocar em debate a possibilidade de dados de avaliação através de Porte-Digi ou Web fólio. Que muito do que acontecer no próximo ano lectivo com este modelo de avaliação, se deverá a solidariedades docentes a nível de Escola , de Departamentos, tornando uma avaliação “punitiva” em formativa, ou seja, temos obrigação de responder ao Ministério da forma que sempre fizemos: somos nós docentes que faremos a Reforma e não a Reforma que nos há-de fazer!

- Apesar da promulgação presidencial, lutar contra o modelo de gestão que aí vem, porque se crítico acérrimo do modelo actual de gestão, e adepto de um gestão personalizada e profissional das escolas, não posso aceitar que se imponha um modelo claramente inconstitucionasl, porque vai de forma inequívoca contra a Lei de Bases do sistema Educativo.

- Que exista um amplo debate e porque não a revogação do 3/2008, que está tão esquecido pelos docentes, que só quando a realidade do próximo ano lectivo lhes pesar é que vão lê-lo e aí, sem possibilidade de o discutir.

- Lutar pela ida para o lixo da História da Educação em Portugal dessa aberração legislativa que é o Novo Estatuto do Aluno. Frisei na reunião, do ridículo da actualização de um RI, segundo as permissas desta lei e que a Plataforma parece ter esquecido este ponto.

Fora destes assuntos, da necessidade de continuar a ter a opinião pública do nosso lado, no momento actual do perigo das auto-mutilações com formas de luta inoportunas, desajustadas no tempo, na forma, ou mesmo estapafúrdio-radicais , que conseguíssem unir Poder e População contra os Professores. E que era necessário deixarmo-nos das vacuidades das frases estilo “ queremos ser avaliados, não temos medo de ser avaliados” para passar a calar os nossos críticos com propostas concretas e credíveis de “COMO QUEREREMOS SER AVALIADOS”. Lançamento de um amplo debate sobre formas de avaliação docente, dar conhecimento dessas propostas na comunicação social e fazer propostas concretas ao Poder, na avaliação final do sistema de avaliação em Julho de 2009.

Não referi , mas poderia ter referido da necessidade da Plataforma pressionar no sentido premente de formação docente em áreas como Supervisão Pedagógica, Educação para a Diferença, Indisciplina em Meio Escolar.

Não referi , mas poderia ter referido relativamente ao modelo de gestão que se avizinha, pelo meu “feeling” 70 a 80% dos Presidentes dos CE se irão candidatar a Directores e que era “giro” nenhum Professor se candidatar ao malfadado Conselho Geral. Não o disse, porque farto-me de rir interiormente só de o pensar! É, quem me conhece sabe, e já o afirmei alto e solenemente que a mim ninguém me verá a beber de qualquer destes dois “copos”! Daqui a uns tempos, alguns colegas hoje tão lutadores, estarão de boquinhas ansiosas para beber da aguinha da “fonte das bicas” e nem por copo vai ser, mas de mãos abertas( Ah! Já sei, na altura com a desculpa que é para não ficar um vazio docente no órgão, ou que será em defesa da classe, e blá, e blá).

E prometo, nunca mais falar sobre isto, porque sei onde devo centrar a minha luta, a minha garra, o meu espaço de liberdade, a minha solidariedade, o meu crescer profissional. E aí vai “bomba”, é que apesar de cansado, de burocraticamente usado pelo poder, ele não me cavalgará nunca, pelo contrário vai-me dando forças para resistir!

Não me vou embora, quero continuar, e a Reforma bem pode esperar “reformada”. O Poder, o Estado, os Políticos podem não me merecer, mas merecem-me na medida em que eu os mereço, alguns colegas “compagnons de route” ,esta maravilhosa Profissão e sobretudo os meus Alunos, razão de ser máxima do meu ser Profissional. Em 15 anos tanto político, tanto inútil social há-de passar pelas pontes, mas se Deus quiser, eu hei-de permanecer, apesar das varizes, dos sulcos lavrados do rosto, das canseiras do dia a dia.

É que tenho ainda milhões de sorrisos para receber e dar, outros milhões de bons-dias joviais e adolescentes a afagar-me as manhãs, uns milhões de posts de colegas deliciosos a ler, uma horas de trabalho de Pigmaleão a fazer, ou pelo menos da satisfação do meu complexo de Pigmaleão a realizar.

Tenham paciência... a aturem-me mais uns anitos.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

PAIXÃO MATEMÁTICA...

ou...Motivação, ou...Solução?

Porque não...

Estudos e estudos , conferências e conferências, livros e livros sobre o problema da Matemática, do ensino da Matemática, das pretensas dificuldades da aquisição do conhecimento matemático, sobre o nosso problema com a Matemática e ainda ninguém se tinha lembrado disto?

Sinceramente gostava que pegasse, e que alastrasse como praga a docentes de outras áreas mesmo já enamorados! Bastava colocar-lhes o prefixo (Re)!

A brincadeira “kitschvidesca” é minha ( que frustração esta de não ser realizador) a música , bem a música...estou a corar é assim de uma espécie de “JustGirls” à espanhola, “ Papa Levante”.

Desculpem qualquer “cousinha” colegas “cinzentões”, mas sem humor não há Professor, sem Humor não há Educação! E olhem que até estou bem incomodado com a aprovação do novo modelo de gestão!

Dedicado a uma “humildenorme” Professora de Matemática que descobri na blogosfera, para quem a Matemática é uma caixinha de segredos matriuscos , que quanto mais se abre, mais se descobre e ama. Ela sabe quem é , mas nome não digo, não vá ela começar a produzir glicinas, alaninas, serinas e tirosinas de vaidade! (eh!eh!)

Ah! Dedico também este vídeo à minha filha secundária, que apesar de ter excelente média em Científico, não gosta mesmo de Matemática e me pergunta sistematicamente se só existe uma forma “horrível” de ensinar Matemática. Respondo-lhe que não sei, porque cozinhar bacalhau e História sei eu, e de dezenas de maneiras!




Desde que se enamoró,
el profesor de matemáticas,
anda buscando una ecuación
que le dé la solución, a sus problemas.

desde que se enamoró,
el profesor de matemáticas,
no hace más que multiplicar,
los minutos que se van,
como pájaros que vuelan.

soy menos que el uno,
porque necesito al dos,
y si el tres aparece,
se me parte en mil partes,
mi corazón.

desde que se enamoró,
el profesor de matemáticas,
han empezado a aparecer,
pintadas, sobre la pared,
del instituto.

desde que se enamoró,
el profesor de matemáticas,
se olvido el número "pi".

quizás no pueda corregir,
los exámenes de junio.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

UMA ARMA Terrivelmente EFICAZ!





Ou...UMA AVALIAÇÃO SIMPLES, CLARA, SEM GRELHAS


da minha “Trancinhas”:

Numa ficha de trabalho de casa do 1º ano sobre a Primavera :
A Primavera é: O SORRISO DA MINHA PROFESSORA!

Tomai lá é que é para aprenderem Professores do meu País. A um meu porquê , respondeu que quando os Professores estão zangados são como o Inverno!

A Colega ficou com o Trabalho de Casa. Pudera! Com um sorriso daquelas e uma avaliadora deste calibre e sinceridade?!

Queria tanto que primassem Primaveras , minha querida FILHA!

Minha filha, muito receio que passada esta linda Primavera que tens, muitos Invernos vás encontrar! É que apesar do aquecimento global, começo a descortinar muitos Invernos de azedume, de descrença, de des...gostar. Onde existirem, as Primaveras minoritárias irão continuar a fazer sorrisos-ninhos de esperança, porque em qualquer Turma A, as Teias continuarão a ser tecidas num Terrear de esperança Por Um Mundo Melhor .

domingo, 30 de março de 2008

MUSIC FOR A WHILE...

A culpa desta postagem é do excelente blogue de divulgação de Música Clássica : " Diz que não Gosta de Música Clássica" do Fernando Vasconcelos". E como não são só as conversas que são como as cerejas, a música também o é...do Raul, do Britten, do Young's Guide, do Purcell, zás ... uma canção de Henry Purcell, que conjuntamente cm "Solitude" são duas jóias musicais que me acompanham em momentos especiais. O interprete, bem... o pai dos contratenores, e uma das vozes mais extraordinárias do século XX. Conheço a voz do Derek Ragin, de James Bowman , de David Daniels entre outras, mas ALFRED DELLER, será sempre a Voz, no que diz respeito a determinado reportório barroco, principalmente o britânico. Uma voz única e inconfundível.
Music For a While é "imagem de marca" de Deller e o "descendo" "Tears drops desta canção é ...
Do Youtube esta canção e uma homenagem a Deller. Para o Raul e o Fernando acabarem bem o Fim-de-Semana.



quarta-feira, 26 de março de 2008

Na Minha Escola Eu Tenho...

Este texto dedicado à colega e mãe Isabela Afra , no juntar às suas interrogações, algumas minhas, com inspiração no mote de um belíssimo poema de Drummond.

Vou contar um segredo...

Eu tenho uma árvore na minha escola. Na minha escola eu tenho uma árvore. É simples, pobre, frágil, mas eu tenho uma árvore na minha escola.

A minha escola tem dezenas de árvores, mas eu tenho esta árvore na minha escola.

Não lhe sei a espécie arbórea , mas sei o nome que lhe dei por baptismo : “ Pathosonírica”, mas por mútuo acordo, não posso revelar as razões deste estranho nome. Ela aprovou, pareceu-lhe clássico e misterioso ao mesmo tempo.

Não sei bem ao certo quando começou, talvez três quatro anos atrás, mas sei como começou: numa tarde quente de cansaço do falabaratar e entristecer naquilo a que chamamos a nossa sala, a necessidade de fuga, de espaço de respiração mais amplo, mesmo murado em quatro paredes. Há dias assim.

E reparei nela. Nem sequer foi amor à primeira vista. Foi um encontro casual, seguido de outros encontros confirmação, para se tornar numa espécie de cumplicidade, de afagos de silêncio. O meu estar no meu silêncio na complacência do silêncio dela. Nunca me exigiu nada em troca do marulhar das suas jovens folhas em brisa leve, da sua sombra, do canto de algum pássaro mais arisco nos seua ramos. Fui ficando no seu deixar-me ficar. A ternura foi nascendo, subtil, clara, adágio molto.

No início um ou outro colega de Educação Física, alunos e alguns funcionários estranharam, depois entranharam. Na sua estrazenha perceberam que eu tinha uma árvore na minha escola. Creditação de algum prestígio acumulado de quase quinze anos na minha escola, evitou certamente a ideia de insanidade mental. A “boa ideia”, “tá-se bem, Prof”, de alguns comentários, sucedeu-se a normalidade de uma a duas vezes por semana, ser normal um determinado professor ter a sua árvore, ou talvez a poética de uma determinada árvore ter direito a um professor.

E no dom de uma árvore acolher um professor, está o encosto ao seu frágil tronco, o sombreá-lo em dia de sol intenso, assistir à sua prostração na tristeza da neutralidade de alguns dias, ou simplesmente deixá-lo sonhar olhando nuvens marotas,brancas, abstractas ou figurativas, a brincar naquele mar de cima.

A minha árvore, miradouro previligiado d’Eles, mesmo sem subir aos seus ramos. As suas brincadeiras, as suas aproximações, os seus contactos desajeitados uns, timidos outros, alguns brutos, mas tão bons e diferentes dos virtuais e teclados, a tudo olhei silenciosa e compreensivamente. E os seus ser “Undertakers” e John Cena” e “Batista” e as aplicações perigosas por ingénuas de “spears”, de “shokeslam” na caixa de saltos em areia no campo de jogos, os seus imaginários Bryant, Pierce ou Ray Allen, da sua imaginária NBA nos cestos rotos do mesmo campo, os seus quererem terem pés à Cristiano Ronaldo, ou toque de magia à Ronaldinho, nos seus maneios de dança de Cristina Aguilera, ou Shakira, D’ Zrt ou Just Girls, a tudo eu e a minha árvore fomos assistindo, piscando-nos o olho de quando em vez.

Mas fomos também estristecendo com a tristeza de alguns que sozinhos pareciam carregar todo o peso da diferença e da condenação de não serem ou puderem igualar os seus pares. Marcados, pela simples razão de serem “desmarcados”, por não possuirem as “Van”, ou as “All Stars”, ou “Gola”, ou “Timberland”, ou porque se era “gordéfia” ,“baleia” , “tótó”, “beto”, ou não serem autorizados pelos pais ao “anilhamento” de brinco ou piercing, ou simplesmente porque aos olhos do espelho da turba-grupo não se é abençoado pela graça dos deuses no corpo ou beleza premeditada e imposta por quem não de direito. Por vezes humilhados, enxotados, quase empurrados desde o início do campo de jogos até perto da minha árvore, quase “animais escorraçados”, e muitas vezes num desespero, numa dor interminável , explodirem em lágrimas que teimosamente procuravam conter.

Aqui e ali, medições de força, ao jogo de quem empurra mais forte-ganha, ou ao jogo do “meco”, incompreensível até eu o compreender, com que alguns “heróis” mimoseavam algumas raparigas, que junto à rede terminal das balizas, eram bombardeavas com boladas de couro chutadas com toda a violência no intuito de lhes acertar e, algumas acertavam, magoando-as, mas elas não fugiam, nem pareciam amofinar-se muito, mesmo que o seu esgar de dor mostrasse que tinha doído. Um sorriso inconsciente e um “estúpido “ muito ao de leve, mostravam que os “heróis” lhes ligavam, que eram preferidas, que alguém lhes dignava uma atenção, mesmo pela dor. O prelúdio do “célebre” e miserável “quanto mais me bates mais gosto de ti”. Ali, numa conversa com uma minha aluna, a confissão cruciante que a primeira coisa que fazia quando acordava era ver se tinha mensagens no telemóvel . E mesmo tendo: “ Então vaca dormiste bem?”, isso era sinal que alguém se tinha lembrado dela.

Aqui e ali, mas muito raramente, umas mãos dadas, um afago, uma festa, o beijo dado na hora, o namorar. E namora-se tão pouco na minha escola, nos bancos da minha escola , à sombra das árvores da minha escola! E isso seria tão bom para a disciplina, e para acalmar hormonas e sentimentos de desafecto, perda e raiva. Pouco, muito pouco, mais em horda, em grupos alargados e barulhentos, onde se berra, onde pouco se diz, onde o pudor de um olhar, a disponibilidade de um ouvir, se diluem em gritarias histéricas, em gritos infantis, em onomatopeias e abreviações que escondem um não saber vocabular de comunicar, quando não pobreza afectiva dolorosa. E até parecem felizes

Gabinete de trabalho também,muitas vezes em tempo bom, o meu local de Coordenação , da papelada mais ou menos burocrática, de trabalho mais ou menos curricular, de reflexão na minha sempre (in)constante formação profissional. De tecnologia mais ou menos avançada, de dossiê mais ou menos maçudo, mas sempre com gigabytes de melodias de Bach, Coltrane, Drake, Tabor, Loreena, Sill, Innocence Mission, and so on. Um dia coloquei-lhe o phone do meu creative no esguio tronco, abanou os ramos num sussurro, não sei se cócegas, se aprovação pelo “Els Ulls” da Ariana Savall. Tudo suporta a minha árvore que tenho na escola.

Eu tenho uma árvore na minha escola. Na minha escola eu tenho uma árvore.

Mas não sou invejoso nem ciumento. Tempos houve que de bom grado aceitei a sua infidelidade, o seu alheamento de mim. Por vezes nos tais dias e horas de encontro, traiu-me com outros, fossem alunos solitários de sofrimento, fossem casais apaixonados em beijos sôfregos adolescentes, ou risos francos e gaiatos da miudagem apardalada misturados à revoada da passarada que a ela se acolhia.

Agora, infelizmente para os dois, muito mais fiel , mas também mais sós. Não que a minha árvore não continue sedutora, mas agora pouca visitação tem e quase nenhuma observação d’Eles consigo. Agora os poucos beijos são fugidios de intervalo, as solidões esparramam-se por paredes, corredores e cantos de portas de salas de aulas, o tempo dos afectos, do olhar, do silêncio, do ouvir, de deitar para fora angústias, tristezas, cansaços, pede meças ao tempo, porque não há tempo. Vive-se nos intervalos do tempo, ama-se, afecta-se no tempo dos intervalos , que são tempos intervalares de quase nada.

Como se não bastasse para os rebentos o familiar e amoroso tocar piano, o falar francês, que agora é inglês, o ballet, o desporto, tiraram-lhes quase tudo, com escolas com espaços feios até dizer basta, com 15 disciplinas no 3º ciclo, com trabalhos de casa sem nexo, com as inefáveis e safardanas aulas de substituição, e preparam-se para as actividades extra-curriculares. Dizem que é escola a tempo inteiro. Será! Será? Será de panela de pressão até rebentar, será uma escola a preparar-se para o grau zero dos afectos. Ocupação máxima para pensamento mínimo, estourá-los pela exaustão, amansá-los pelo espartilho do saber compartimentado, pelo crescer acrítico, pela não cultura, pelo triste do “tê-los ocupados –podemos estar descansados”. Não se educa pela ocupação, educa-se pelo coração.

O que daí virá, o tempo se encarregará de demonstrar. Talvez...talvez num tempo imediato, a indisciplina e e os focos dela, mesmo a violência, a crescer como cogumelos, a desmotivação e o cansaço a invadir corpos e corações, as soluções sejam tecnológicas, policiais, tribunalícias, a esvair-se no próprio complexo de serem soluções. Num tempo futuro, talvez aquilo que quase sempre fomos: um país tristonho, arredio de futuros, adiado consecutivamente, de costumes brandos e calaceiros. E vamos admirar-nos? Afinal o que vamos dando a esta miudagem? Que temos para lhes mostrar que os apaixone tanto? Muitos de nós damos-lhes precisamente aquilo em que eles se revêem: a irracionalidade, o juízo fácil, o egoísmo mais larvar, o objectivo do objecto, a vida gelatinosa que escolhemos.

Mas isto são pensamentos que vou confidenciando à minha árvore, porque :

Eu tenho uma árvore na minha escola. Na minha escola eu tenho uma árvore.

E recentemente andamos tristes, eu e ela. Pelo que escrevi e porque não encontramos respostas para tanta solidão. Antes das férias da Páscoa e durante uma hora entre reuniões, perguntou-me porquê e não lhe soube responder. Fartou-se de rir quando tentei ser poético e lhe respondi que muitos políticos, alguns pais e professores, não conseguem ser” Homens que têm árvores na cabeça” , mas lá me desmascarou dizendo-me que aquilo não era meu. Confessei-lhe que não, que tinha sido surripiado a um livro que os meus filhos adoram do Jorge Letria. Quis saber a História e eu que não, que a reunião do CEF, aproximava-se, e ela que abreviasse , e eu abreviei. Ela adorou. Depois despedimo-nos, não sem antes na fresca brisa da tarde a ter ouvido sussurrar : Existente Instante, o problemas deles não é ter uma árvore na cabeça, é... não terem raízes no coração.

Sorri-lhe e alguma coisa se prendeu em mim. Não sei se no coração, se nos olhos.

Já agora. Isto é um segredo. Não vá num futuro próximo algum inspector querer ser convidado a inspeccionar o meu “gabinete de trabalho”. Ali só teria para lhe presentear a minha “arfólio” – Phatosonírica, e não sei se ela estaria muito interessada nisso, e se ele não me mandaria por antecipação para o quadro de mobilidade especial, porque:

Eu tenho uma árvore na minha escola. Na minha escola eu tenho uma árvore.

Existente Instante