sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

MOZART...SEMPRE NOVO




NO MEU ENVELHECER

Sei que estou a envelhecer.

Nada de surpreendente, nada que o bilhete de identidade não confirme, nada que as pernas não me vão comunicando ao íntimo. Ao longo da carreira, o sentar era pecado, mesmo para escrever o sumário,agora... as pernas a pedir meças a qualquer coisa que não sei definir, mas que deve estar no intervalo entre o cansaço e a vontade da desistência de uma verticalidade esquelética aprumada que sempre cultivei. Assim, por vezes numa ou outra aula ao terceiro ou quarto tempo, a vontade de me sentar, a cedência ao peso do “cu-cadeiral” que sempre recusei, e eis-me rendido aos prazeres de uma mísera e desengonçada cadeira, atrás de uma não menos formatada e feia mesa, que há quem lhe chame secretária, com que a minha pasta, os meus haveres docentes, têm de partilhar ralações com computador, monitor cabos e afins.


Sei que estou a envelhecer, porque o que vinte e tal anos atrás ,nos corredores de uma escola, era música para os meus ouvidos, gritos de liberdade livre, de soltar amarras, depois de “secas” desérticas de algumas aulas, agora são gritos histéricos de “Jane” assustadas com coisa nenhuma , e grunhidos sem mãos batidas no peito de encantadores “tarzans” adolescentes.


Sei que estou a envelhecer, porque o burburinho saltitante e catártico na sala de Professores nos “grandes intervalos”, me irrita como poucos, porque nem sequer se consegue perceber o valor terapêutico e calmante de uma música ambiente numa sala como a referida ( rio-me, porque vai para um bons anos, uma colega que tinha tanto peso de riquinha como leveza de inteligência,pediu para desligar num dos meus primeiros portáteis, o meu Gould-Bach, porque a estava a incomodar no seu riso completamente desconexo, parvo e histérico- paz à sua inteligência e cultura!).


Sei que estou a envelhecer, porque nas reuniões, a um trabalho produtivo, aos assuntos importantes, sobrepõem-se muitas vezes o “cochicho”, o falabaratar para o lado, o “orelhar-a-orelhar”, o ciciar inconsequente, que muitas vezes nada tem a ver com a reunião e que causa um burburinho, uma ruído de fundo insuportável, um “bruá” característico que desconcentra e desconcerta quem dirige a reunião, ou quem quer que ela seja produtiva. Doa a quem doer, mas ao fim de quase trinta anos de carreira, continuo entrincheirado na premissa: não sabemos reunir, não sabemos agrupar, desperdiçamos tempo e energias em horas e minutos infinitos de “conversa fiada” , ou de verbalização lateral que se sobrepõe ao essencial. Juro que qualquer dia, adopto a estratégia moderna de reuniões, a de patamares, de andares separados, desde que me facultem o elevador (fina ironia para quem a souber descodificar)!


Sei que estou a envelhecer, porque estou a perder energias de pilha recentemente carregada, para aproveitar ao máximo a bateria da que se vai gastando. Assim com a cultura, principalmente com a música dita clássica. Já não aquela vontade louca das novidades, da pesquisa gulosa das “Diapason”, das “Scherzo”, da “Amadeus”, da “Goldberg”, da “Classical Music”, ou dos calhamaços ”Dictionnaire”, ou “Guide” da Robert Laffont, ou dos ainda mais grossos calhamaços “ Penguin Guide...” do Ivan March e do Robert Layton, com que fui construindo a minha discoteca e muitas vezes as versões variadas de uma mesma obra.


Sei que estou a envelhecer, porque agora não me perco. Quase automático, como velho companheiro de afago, de “já não te via há uns tempos”, sei a estante, o lugar dela, a inclinação geométrica do encosto das lombadas, o sorriso maroto daquela estreita faixa que me indica o(s) eleito(s) no meio da multidão. Estou a envelhecer, dado adquirido, sem dramas, sem “crises de...”. Não sei se é bom ou mau, é simplesmente. Fases intensas de Re Maior, (re)audição, de (re) leitura, de (re)olhar, de rodar as mão em volta de mim e abraçar-me emocionado pelo que ela a vida me tem dado. Também, nunca lhe pedi muito, é verdade.


Sei que estou a envelhecer e por vezes vontade profunda de regressar a Mozart, a um Mozart , a uma determinada interpretação de Mozart que fez vibrar as cordas do instrumento sensível de Deus que vou sendo. Assim uma tarde em legítima defesa com Mozart, o Requiem de Mozart que tenho em “n” interpretações de Bohm a Karajan, passaando por Harnoncourt. Mas há uma, uma só, que vai para anos me consegue emocionar até às lágrimas, tal como o conseguiu da primeira vez que a ouvi. A tal, que no meio da estante "mozartiana”, me pisca o olho maroto de velha conhecida. Um vinil, para sistema quadrifónico de som, comprado na discoteca Orfeu (Boavista) nos idos anos 80 com um dos meus primeiros ordenados de professor.Esta versão do Requiem KV626 com vozes brancas do Tölzer Knabenchor (tenho alguns discos belíssimos com estes angélicos miúdos), com solistas crianças na voz de soprano ( Hans Buchhierl) e contra-tenor ( Mario Krämer ) que dão uma eteriadade às respectivas áreas como raramente ouvi, um coro magnífico, uma orquestra com “originalinstrumenten) em sintonia perfeita com o espirito da obra e sobretudo, uma paixão, uma entrega interpretativa que comove, que transporta, é aquele que guardo no arca-tesouro do lado bom do coração. Não me interessa discutir Süssmayr, a tessitura das vozes infantis, o “rubbato” ou “leggato” e coisas afins de eruditos e desafinados críticos da direcção de Schmidt-Gaden, porque é o “meu” Requiem, o meu Mozart eterno, venham as versões que vierem.


Sei que estou a envelhecer. Mozart não! Eterno até à eternidade. Um jovem que me acompanha fiel amigo desde o fim da adolescência.


Sei que estou a envelhecer, porque nem sei muito bem porque carga d’água estou aqui a partilhar isto convosco.




Um pequenino extracto do "meu" Mozart - vinil , com "estalinhos e tudo" sem tratamento de software. Não , não é o Lacrimosa.


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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Festival e Papinha...Olha para Mim Entusiasmado!

Estou embevecido, o homem desfaz-se em entrevistas, em entusiasmos, nos afagos, no melhor que nos aconteceu nos últimos anos, na vitória, nos amanhãs que ainda onde florir.

Enternecido com tanto vigor, tanto acalento, tanto “farolização” , tanta luz para me alumiar! Agradecido até ao fundo da minha alma com tanto desvelo, tanta preocupação, tanta incongruência. Até me deu vontade de chorar acreditem, pois fez-me lembrar os remendos nos joelhos ou no sítio onde as costas mudam de nome que a minha santa mãe me obrigava a usar para esconder buraquito ou buracão! Era remendo para esconder miséria, mas graças a Deus que não de espírito.


Assim como agradecer a tão excelso personagem que até apela à minha inteligência para perceber o “sapateiro-remendão”? E não é que de súbito me lembrei de duas canções festivaleiras, amorosas, ingénuas no seu sentido?

Pois , caros e parcos leitores, para o “homem entusiasta” estas duas pérolas : E que me perdoem o Marco Paulo e o Artur Garcia que até nem se desenvencilharam nada mal!








Mas...que raio, é que não sei o que me está a dar! Nostálgico até ao fundo de mim! Não é que me lembrei de um anúncio delicioso? E que terá o anúncio publicitário a ver com o resto? Sei lá! Ocorreu-me!


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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Saudação...Bobos e Espertos

Não, não vou ser indulgente, porque vou acreditando que muitas vezes é uma forma polida de desprezar alguém, por isso, apesar de amargo, quero ironicamente saudar o acordo fresquinho ME-Sindicatos sobre o futuro”novo” Estatuto e Avaliação de Desempenho Docente. Não posso também de passagem saudar os diligentes e instrumentalizados dirigentes sindicais, os meus célebres colegas blogosféricos fazedores de opinião, os também colegas, durante meses, arregimentadores militantes de ódios e raiva de sala de professores, os que nunca leram um documento, mas que num passe de mágica se tornaram “experts” de tudo relativo a Estatuto, ADD, Supervisão Pedagógica e afins e, por ultimo, aos sorrisos encantadores, mesmo mavioso de quem percebeu , honra lhe seja feita, que com “papas e bolos...”


Não sei se é um bom ou mau acordo, mas como sei ler e ainda percebo alguma de metonímia, imagens , metáforas , significantes e significados, pasmo o entendimento e a futura paz a voltar às escolas. Saúdo a “minha” classe paupérrima de afectos , que ao primeiro afago, à primeira carícia, se derrete delicodoce perante uma simples mudança de terminologia, de texto, de “poemário”. Saúdo também os colegas tão, tão convictos das suas opiniões, que esperam sempre das convicções dos outros sejam blogues ou sindicatos, para tornarem mais convictas as convicções que nunca tiveram.


Saúdo este entendimento, porque não havendo titularização, há "titulares" e havendo ADD como havia, há outra que é quase a mesma, com objectivos (facultativos-que praticamente se tornarão obrigatórios, percebam porquê!), aulas assistidas, (corpo de docentes avaliadores com especialização –claro...corrida à Bolt, de muitos que antes odiavam as aulas assistidas – como vos conheço, Classe!) relatório de autoavaliação e tudo, e depois, Relator e Conselho Pedagógico ( Claro com os Coordenadores a não serem eleitos pelos próprios colegas que vão avaliar, mas sim pela DE). Ah! O relator terá de ter “Tendencialmente” formação especializada, perceberam, não perceberam? Saúdo este acordo pelo que ele esconde de oportunidade política, de interesses escondidos, do “ficarem todos a ganhar”, perdendo a classe!


Então, com um bocadinho de “chantilly” e açúcar, o que era azedo antes, agora come-se? Como vão agora os meus colegas “arregimentadores” travestir isto para eu engolir?



Pronto , paz nas escolas, como se a houvesse antes, como se agora (ò hipócritas) se conseguisse distinguir o mérito, como se agora as aulas assistidas fossem diferentes das que foram, como se agora o pedido de MB, ou Excelente, não tenha a mesma carga, só porque esferográficas de má qualidade apressaram assinaturas num documento. Agora a paz, agora “tudo como antes no quartel em Abrantes”, embora pareça que não.


E...era isto o mais importante? Isto vai modificar a essência do ser Professor e do se ser Professor? Vai trazer vontades de se ser melhor Professor, de ser quase um "bom professor"? Isto vai ajudar o colega em dificuldades? Vai incentivar o que não lê, não reflecte, o “dinossauro”, o “estagnado”? Isto vai ajudar aqueles que são os mais desgraçados, esquecidos e enxovalhados da classe docente, os CONTRATADOS?


Assim, saúdo este acordo “histórico” . E para o saudar, os meus parcos leitores já sabem que a ironia de vez em quando gosta de me visitar, a literatura, a excelente literatura, neste caso a brasileira, que tanto amo. Um texto magnífico de Clarice Lispector, irónico, ácido na sua áspera beleza. Porque efectivamente neste processo, houve os “bobos”, os ”espertos”, mas também os oportunistas, os idiotas, os arregimentados. Olhem eu situo-me entre o bobo e o inteligente com cabeça própria!



Já agora para terminar, só estas informações para qualquer mixordeiro que venha aqui chafurdar : Era titular e estou –me completamente nas tintas que fosse o meu “título-ao-ar”. Foi para bem da classe! Numa leitura de “escanteio”, o acordo até me parece favorecer, ou pelo menos, não prejudicar. Adoro ser Coordenador, tenho um Departamento de 13 colegas de se lhe tirar o chapéu, mas podem estar descansados, porque da mesma forma que nunca aceitarei nenhum cargo num dos órgão de gestão, nomeadamente no Conselho Geral (porque não concordo com este modelo de gestão) nunca, mas nunca, abdicarei da minha essência, daquilo que amo, que é ser Professor , do cheiro, da vibração da sala de aulas, por isso Supervisor a tempo inteiro “Jamés” , e se relator por obrigação, já que não tenho “tendência a” , vai pingar limão dentro de mim, de tristeza e raiva. Ah! Quanto a lutas ( tenham calma que fui a Lisboa!) de mandada sindicalização...pois está-se mesmo a ver...o Mar é tão belo!

Bem, vou indo à vida! Vou preparar aulas para duas turmas CEF que não me deixam cair na fase do "desinvestimento" (já que não passei pela do "conservadorismo e lamentações" ) do Michael Huberman. O "Treinador Carter" espera-me e a eles, espero, para motivação sobre o módulo Autoridade e " Os Cobardes" de Corbacho e Cruz, para o bullying e o tema dos Direitos Humanos.

Aí vai a minha Clarice Lispector, com saudável e irónica gargalhada: Viva o ME, Viva os Sindicatos, Vivam os blogues....VIVA EU!