Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

HISTÓRIA SEGUNDO R...


Aproximou-se tímida, mas resoluta. Gostava que lesse alguns dos seus escritos. Não bem um diário, mas acervos , arbustos de angústia, perplexidades angulosas na vida de uma adolescente.

Li, orgulhoso pela confiança. E passados dias, num simples olhar silencioso entreguei-lhe esta carta. Com outro olhar-sorriso de “meu professor” , dialogou comigo no dia a seguir.

Nunca mais nos esquecemos.



Só, no seu quarto, R...olhou atentamente o espelho...

Alguém estava do lado de lá! Parecia-lhe ela própria e não outra, todavia um ligeiro descentrar dos contornos e um olhar acolhedor, diferente da surpresa do seu, fê-la perceber que era outra e não ela própria!

R... do lado de lá, sorriu para R...do lado de cá, que se mantinha estranhamente serena e convidou-a a entrar no espelho...lembrança vaga de uma história conhecida. R... do lado de lá parecia-lhe familiar...uma Amiga conhecida de longa data. Porque não!? Entrou...


Cone de luz vertiginoso, espaço-tempo centrifugado. Um espaço escuro a ultrapassar, pareceu-lhe, ou pelo menos teve dele consciência. Vontade de o ultrapassar, mas ao mesmo tempo, nostalgia de o explorar, de regressar a ele! Sensação esquisita! O que seria? O que seria que a impelia para diante e ao mesmo tempo lhe queria refrear o passo?

Sentiu refluir no tempo, sem sair do tempo. Sentia uma tristeza estranha por deixar algo para trás, mas também uma alegria incontida de caminhar para algo de novo que pressentia complexa, irremediável , bela no seu mistério! O que seria?


Na confusão da viagem, pareceu-lhe vislumbrar uma criança de bibe que ao longe lhe acenava um adeus. Não teve tempo de retribuir, porque deu por si no alto de uma falésia, alta, verde, diáfana. Em redor uma paisagem indescritível, etérea, morada de deuses não conhecidos.

A amiga R... do lado de lá tinha desaparecido. Estava só! Ou talvez não estivesse, porque sentiu-a em si, como se os contornos desfocados tivessem confluído na sua pessoa - era ela com a outra! Agora nem o lado de lá, nem o lado de cá, una, simplesmente o lado do Eu!

Mesmo no pico da falésia...


Sentia-se livre, mas estranhamente só! Apeteceu-lhe gritar, como gostava de gritar- de braços abertos à brisa que entretanto se fazia sentir! E gritou...


Um brado longo...uma palavra apenas agreste, que se repercutiu em ondas sucessivas até se perderem de ouvido. Raiva...Raiv...Rai...Ra...R...! Na magia do local, o eco trazia-lhe não os contornos acentuados do R inicial, pelo qual começava curiosamente o seu nome, mas palavras em ondas sucessivas de R, ciciadas ao vento...Raiz... Reconforto...Reconstrução...Raridade...Razão...Raiar...Ramo...Ré maior!

Sentiu-se melhor, apesar de uma melancolia agitada já conhecida e que a invadia amiudamente, prelúdio de uma serenidade sideral que haveria de vir. Não se enganava, contudo. Ela, a raiva, haveria de voltar, porque ela volta sempre, mas agora começava a sentir-se preparada para a aceitar, porque tinha descoberto que a serenidade nascia da raiva expulsa, a paz, da dor domada!


Olhou em volta, agora sentia-se bem, diferente, alguém! Alguém muito próprio, única, entre iguais! Queria ser assim, sabia ser possível ser assim, haveria de ser assim!

Sentiu-se grande como o Universo e o Mundo pequenino cabia em si, mas outro Mundo enorme, misterioso, abria-se ao seu fascínio e isso fez sentir-se pequenina! Era isso ! A grandeza ou a pequenez do Mundo dependia da pequenez ou grandeza d' Alma de cada ser e isso torna-nos únicos, irrepetíveis! R... era R... única e irrepetível, e isso fê-la sentir um arrepio de orgulho e medo, pela responsabilidade que passaria a carregar em si! Aceitaria o desafio, que cobardia não teria jamais guarida em R...!!

Tinha fome, mas uma fome estranha, não física, indecifrável, indizível. Era uma fome de respostas a porquês, mesmo os nunca formulados, e isso inquietava-a.


Uma voz terna, sussurrante, balsâmica, calmou-a. Uma voz ou o vento? Numa fímbria de nuvens algodoadas, pareceu-lhe vislumbrar o rosto luminoso de Atena que lhe sorria. " R... a luz não foge aos eleitos! O caminho pode parecer longo e tortuoso, mas procura-a sempre, sempre, sempre, até encontrares o reino dos S. O crescimento interior orientará o teu caminho, até à Sabedoria, Sensibilidade, Serenidade!" Ouviu, ou pareceu-lhe ouvir, pois abriu os olhos com a mãe a acordá-la suavemente, para a "canseira do dia a dia". Levantou-se leve, olhou o sol radioso da manhã, sorriu e mirou-se ao espelho...alguém do outro lado piscou-lhe o olho! Espalmou a sua mão ternamente no espelho deixando a sua impressão digital .


Estava feliz !


O Mundo lá fora podia contar com o dentro combativo de Si !





Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009

FERNANDO ECHEVARRIA




Uma edição de uma beleza e qualidade quase sem par na poesia portuguesa.


Um poeta luminoso cristalino na sua imersão no fácil difícil do dizer poético. Um dos enormes poetas deste século na poesia portuguesa, humilde, avesso ao mediatismo. Uma voz frágil possante da interioridade do ir sendo homem em humanidade atenta.


Uma poesia que vai teclando em mim ao som do “Das Wholtemperierte Clavier”. Uma poesia de prelúdio e fuga que nunca o é porque reencontro na coda final da liberdade da palavra poética maior que que o mundo que sonha.


Ave ferida, renascida sempre, de Base e Timbre, filosófica, fenomelógica, de Pemumbra ao Corpo Intenso, a poesia de Fernando Echevarria.

5 poemas à sorte que nunca o é, por sorte ser de escolha minha.



Da História

1

PENSAR A HISTORIA E SER PENSADO NELA ,

sendo ela pensada noutra parte

com a nossa a, se possivel, vê-la

no nó especular de onde ela parte.

E, alem do nó, o azul rasga a janela

e nele se move, sem lugar, amar-te

sendo amado de ti, como uma estrela

no pensamento de que não se aparte.

Ou arruina-se a mágoa, a perspectiva

e o próprio azul por onde se mover

é amar-te numa história viva

que ainda nao soubemos escrever.

Porque escrevê-la a ensombra e a deriva

para a seguirmos como ja não é.




QUANDO A MELANCOLIA FOR DOCE, É PORQUE É GRANDE.

Todos podem, então, entrar por ela.

E, ao mesmo tempo, irão por entre as árvores

com a estúrdia dos lenços nas clareiras,

sem que, por isso, se perturbe a grande

doçura. Que a tristeza

nem ja é triste. Está-se

movendo para onde somente grande seja.



NAO É O QUE PASSA QUE NOS FAZ ESTAR TRISTES.

É amarmos que passe na tristeza,

tocado a luz interior que exige

cada vulto chegado a transparência.

Porque amarmos que passe é um limite.

A luz aí se eleva

em cada vulto. E assiste-se

ao apogeu de trânsito e inocência.

Cada qual se despede. E cada qual a triste.

Mas todos cumprem a rotação imensa

e, chegados ao apogeu, assistem.

Amam o lume abrupto da tristeza.

É DOCE ENVELHECER QUANDO O QUE AVANÇA

e ir recrudescendo a inteligência.

Entra-lhe o mundo no vagar. Decanta

o seu volume inteiro de contenda.

Transporta-se. E entrega na palavra

a inteligível criação. Entrega

o desenvolvimento. O pulso. A trama

que ajustam sua refundacão aberta.

E a docura de se ir vendo alarga

o envelhecimento a quase ciência.

Uma ciência onde o enigma é alma.

E onde o mundo contunde. Insiste. E pesa.



Ultima Licão de Psicanálise

QUE TRISTE QUE ERA NÃO SER TRISTE NUNCA

Andar à chuva como deve andar

quem por ela se molha e nela estuda,

pensando dela o que pensado esta.

Ou passeando ao sol do mesmo modo.

Como se andar por ele andasse em si,

nem triste nem alegre, mas só como

ao sol a que anda e que se move ali.

Com, evidentemente, a consciência

de passar no relevo dessa imagem

como se passa pela indiferença

de se saber um ponto na paisagem.

E de saber que nunca houve tristeza,

nem ser triste foi triste, mas passagem.















Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

Recusado...Adiado


Cometi um pecado na passada semana. Exactamente o mesmo pecado que recomendo aos meus alunos não cometer. Não misturar a Obra com o Homem, apreciar a poesia, a música, a pintura, sem muitas vezes entrar nos meandros mais profundos da vida real da personagem artística. Confesso que só tardiamente e com suficiente formação, consegui separar as águas, onde elas deveriam ser separadas, entre a realidade e a estética, entre o fingimento artístico e a vidinha que deus nos deu para “ser vivida”.


Assim na Bertrand com dinheiro de Professor que não abunda e dois excelentes livros de poesia, por acaso recolha da obra de dois grandes poetas infelizmente pouco conhecidos. Depois da leitura, reeleitura, de vários poemas, a escolha de um livro pela recusa de outro. E o recusado foi : “ O Sentido Da Vida É Só Cantar” do António Baharona.


Acontece que já para uns anitos tenho com o homem Barahona um certo parcialismo, desde que ele defendeu encarniçadamente em entrevistas ( agora diz na entrevista à Ler que não foi bem isso, que foi mal interpretado e blá, blá, blá, quando me lembro perfeitamente da sua posição) a "fatwa" do aiatolá Ruholah Khomeini contra Salman Rushdie, desde alguns escritos polémicos que apareceram na Net sobre assuntos controversos como o Aborto etc.


Homem virado para a polémica, para uma certa marginalidade, para um sentido-vida, vida sentida, que muitas vezes descampa no coração à boca, a entrevista que afirma última que deu à Ler 75 de Dezembro, tem momentos assombrosos, diria momentos à Barahona, não sei se desculpáveis ou não.
Claro que nutro pelo poeta, pelo estudioso da literatura ( até hoje a melhor edição e até análise do Livro de Cesário Verde e, ofereçam-no a esse portento de ignorância dondoca, amada por muitos docentes na mesma dose de ignorância, MFM ), pelo poeta de canções ( do Zeca, por exemplo) e até pelo actor-recitante, no belíssimo “Conversa Acabada de João Botelho ( faz de (Pessoa Ortónimo (Leitor)) – todavia declarações como:

“ Eu hoje diria: viva Salazar” ( com gargalhada e tudo),

“ Porque eu acho Salazar foi o último político honesto que teve Portugal” (...) O homem podia ter realmente defeitos-e tinha (quais não diz) – mas também tinha virtudes. Uma delas era a honestidade. “ (de que tipo? Com que máscaras?)


(...) Vale mais uma página de qualquer discurso de Salazar do que toda a obra de Saramago. Estilisticamente. O autor de cabeceira do Salazar era o Padre António Vieira. Se ler qualquer dos discursos do Salazar lê Português. Que é uma coisa que já raramente se encontra. É um clássico.” ( quem, o Vieira ou os discursos do Salazar-questão minha. Depois, se o Barahona ler os “Segredos da Cozinha Tradicional Portuguesa” da Maria de Lurdes Modesto, também lê Português!)


Assim, uma certa raiva a invadir-me com “ O Sentido Da Vida É Só Cantar” na mão e ainda por cima com o raio do Pacheco Pereira a atormentar-me e bem, com recente cronicar no Opinião do Público em que afirma “ (...)Tem crescido depois do 25 de Abril uma salazarofilia popular, antipolítica, demagógica e justicialista (...), o que ainda pude constar vai para dias, num blogue com comentários de alguns colegas sobre disciplina na escola, que para ser sedoso, raiavam a ignorância, o desespero e mesmo ideias fascizantes - só faltava a perpétua e o fuzilamento. Mete-me tanta impressão ao longo de anos, nas salas de professores, ainda ouvir desabafos tão tristemente idiotas de alguns colegas, poucos felizmente, que “isto iria lá com um Salazar”, que nesse tempo sim, havia isto e aquilo...pois “no tempo do Salazar nem se podia respirar” disse a alguns que me olharam com parede de fuzilamento à vista.


Pronto, pecado cometido, decisão tomada, o livro de António Barahona recusado, vá lá... adiado, porque é sem dúvida um grande poeta, um enorme poeta. Estes dois belíssimos poemas são uma homenagem ao poeta e remissão do meu pecado.

REAPARIÇÃO DE CESÁRIO VERDE

Na alvura do piquenique
houve esta coisa simplesmente bela:
o voo duma borboleta a pique
no alvo da aguarela

O Sentido da Vida é só Cantar, Assírio & Alvim, 2008



MATRIMÓNIO DAS LUZES

XI

Que a vida chega ao fim, em qualquer momento,
não é novidade nenhuma nem sequer um susto,
mas apenas consciência do luto prévio
e previdente pano de fundo do meu trabalho

Que a vida chega ao fim, que pode ser princípio
e outras frases que tais que trazem água no bico,
não é novidade nenhuma para quem é um passarão
disposto a não morrer mesmo depois de morto

Que a vida não me chega e só o amor alcança
sem medir a distância e a duração do voo


Para terminar, quem escreve assim sobre Cesário, sabe do que fala, do que leu, do que “Cesarianou”. Barahona, claro.

“Cesário era um poeta de subtracção e não de acumulação, que escrevia, com caneta de molhar no tinteiro e , em vez de tesoura, usava uma navalha afiada de ponta e mola, previamente untada com azeite, para cortar cerce as excrescências dos poemas"


Ah! o Poeta escolhido na compra, ficará para depois.



Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2008

Leituras, Sorrisos e...Isso Queriam Eles

Leituras interessantes do dia de hoje. E alguns sorrisos também. Se calhar algumas ligações, sabe-se lá. Depois, mais uma coincidência fabulosa: quando colocava de parte alguns livros para leituras natalícias, eis que surge um que me marcou profissionalmente vai para quase 16 anos.

Não gosto do olho por olho dente por dente, nem que se responda ao facciosismo, à propaganda descarada do poder com iguais armas. Assim neste momento delicado da vida profissional lá vão saindo inquéritos, entrevistas, desafabos e desalentos, quase uma espécie de mortificação, vitimização para comunicação social ver e conquistar opinião pública que se foi perdendo. Tenho para mim que determinadas atitudes e posições de alguns colegas da nossa classe e mesmo dirigentes sindicais se assemelham a um exército de “malucos” que se em dois dias ataca o general, em três dias ataca as próprias armas, parafraseando Gonçalo Tavares

Assim inquérito FNE e ISET, quatro em cinco professores abandonariam a carreira docente se pudessem. Democraticamente não acredito nisto, simplesmente. Nem na amostra, nem na fiabilidade, nem sequer na forma como foi realizada. Coincidência ou não, o timing deste inquérito coincidiu como uma fase de luta bastante acesa entre a nossa classe o o ME. Já aqui afirmei que não pauto análises de nada por reacções mais ou menos espontâneas e efervescentes de sala de professores, e se vou notando descontentamento e amargura em muitos, só em poucos vou ouvindo esse desejo de abandono, legítimo, diga-se desde já, principalmente quando o poder mudou as regras do jogo e lhes negou o merecido “descanso do guerreiro”, não ligando nem à idade, nem ao contributo valioso de anos dados a uma causa, a uma profissão.








A segunda notícia tem a ver com o longo artigo no JN de hoje e a aluna que concluiu o Secundário com média de vinte . Engraçado o que em caixa ela afirma, e sobretudo, a verdade à “la palisse” que ela sentiu na pele e que muitos não querem ver, sobre os professores da sua vida. Aluna de colégio privado da Imaculada Conceição até ao 9º e de Secundária num colégio beneditino, a aluna não se inibe de dizer que teve professores excelentes, mas que também os teve péssimos, e que estes lhe deram força pelo facto de... “Por que não tentar ser melhor do que eles?” Aqui... sorriso de orelha a orelha, porque não só foi uma resposta semelhante que dei aos meus pais quando me questionaram ainda nos meus vinte e dois anos sobre a minha opção de vida profissional, como é exactamente a resposta que dou a minha filha “secundária” que não sendo de vintes, alguns vai tendo, mas que ao longo dos seus estudos me foi questionando implacavelmente: Pai, porquê alguns professores tão maus ?


Para terminar: uma sugestão, um livro...não sobre abandono, mas sobre ingresso, alguém que resolve ser Professor não propriamente na flor da juventude mas...






Já agora para terminar: entrei cedo e vou, quero sair tarde, PORQUE CADA VEZ GOSTO MAIS DE SER PROFESSOR! Não vou dar trunfos a poder político nenhum, os governos passam e eu vou ficando, e entre uma "surrapa "deslambida, mesmo reinante, prefiro o meu "envelhecido em cascos de carvalho" em que me vou tornando. Não amorfo, não fossilizado, mas também não burro, a todos os poderes, aspirantes de, oportunismos de ocasião , seja de que lado for. Sempre à minha maneira e em estrada escolhida vai para trinta anos, com letreiro em sentido único: ELES e...só por Eles e a essência d'Eles, ser Professor vale a pena!













Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

Um A , ou Ah! simplesmente...




















Às vezes dá-me..agora menos do que uns bons anos atrás. Escrever textos para a miudagem por isto e por aquilo. Por vezes nos primeiros 5, 10 minutos de aula, ou porque estou felicíssimo com eles, ou porque me apetece “trincá-los” de raiva à moda da Sé do Porto, lá sai texto, ou poesia, silêncio cúmplice ou acusador, olhar festivo, ou tristonho. Lá nos entendemos pois, porque isto de gostar de um só lado, torna a balança deficitária de afectos.


Assim, muitas vezes turmas que nos marcam inexplicavelmente, outras com explicações que seguem as explicações que nós queremos , ainda outras que são, mas que deixam de ser na voragem dos tempos. Gosto das que ficam, das que aninham na minha memória, no meu lado bom do coração, que não sei onde é, mas que está sempre a pedir meças ao menos bom.


Dos alunos, igual. Uns, estrelas cadentes, outros pequeninos sóis que vão preenchendo o térreo e imperfeito universo de que sou feito. Uns ficam muito mais do que outros, nesta contabilidade de afectos de que é feito muito o meu ser professor. Os porquês de assim serem as coisas, todos os professores que as sentem sabem do que falo. Os outros, os que se riem disto e que “gostam de todos por igual”, fazem-me lembrar aqueles alunos que de forma inteligente ,mas já calculista, escrevem na caderneta de cada professor de disciplina que a disciplina dele é uma das preferidas!


Claro que tive e tenho turmas que me enchem as medidas e outras nem tanto, claro que tenho e tive alunos que marcaram a minha profissão e o meu ser professor de forma indelével, muitos, de rebeldia e disrupção quanto baste, mas sou humano, que se há-de fazer!? Complexo de Pigmalião, dirão. Seja, mas hoje não me apetece abordagens psicanalíticas. Há colegas que adoram o “neutrex” relacional, mas respeitando, não uso dessa “lixívia” sentimental, pronto. Sou mesmo encardido de afectos, sem remissão do meu pecado.


Assim, de surpresa e despedida natalícia para uma turma de um nono ano que adorava, e tinha acompanhado desde o 7º , resolvo ler-lhes este simples texto. Felizes eles na minha felicidade. Pediram-mo para guardar para memória futura.


A vida de Professor pode ser feita de gestos relacionais tão simples e pequenos e do que vale a pena, verdadeiramente do que vale a pena, que por vezes admiro-me que outro lado mais obscuro, funcional e burocrático da profissão consiga em alguns colegas abafar, soterrar a essência primeira do ser Professor. Claro que dou aulas (detesto a expressão), mas claro que as recebo, outras, na mesma proporção. Repito mais uma vez, para raiva dos anti eduquês, e, apesar dos quase trinta anos de profissão, prefiro mil vezes o meu “burn in” profissional, do que os muito “burnout” a que vou tristemente assistindo. Sou um aproveitador da minha profissão? Ai não que não sou!

Sinfonia de Natal em A Maior para Orquestra de Afectos


Alturas em que aparece um A na nossa vida...

Quando aparece um A, só me resta haver festa cá dentro

E sentir um Ah! de Alegria e deslumbramento!

Um A é um A seja que A for, mas será assim ?

Ah! ia-me esquecendo...A é A de Amizade, Amor, Afago,

Acalmia, Acalento, Acolhimento, Acreditar, Aconselhar,

Admiração, Acompanhamento...Afecto... e... Ah! que raiva,

Não me lembro de mais!

Mas mais sobre o A! dias em que um A nos faz bem

À Alma ! Haver A, muitos sem dúvida, mas A 9.º Esperança um só,

este A de jovens Ah! e mais nenhum!

poucas turmas A assim tão...tão...tão...tão A, pois claro!

Na turma A, Abundância de ternura, simpatia solidariedade,

Força - Alavanca de querer mover o Mundo, vontade de colocar

O A em todos os T de tristeza, os P de pobreza de espírito,

Os S de sacanice, os V de violência e isso é bom, e isso é bonito,

E isso deixa-me Feliz e Orgulhoso de ter uma turma A Assim tão

Ah! Tão ternuramente A que me faz acreditar que o Mundo no

Futuro pode ser dos A para assim ser um Mundo Ah!!


Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2008

AMORES...DE TODAS AS CORES


Culpa da Sara Oliveira e da “Vida Suspensa”, por isso para Ela.

Não me apetece falar de Maria Helena, apenas e só do Amor de Maria Helena Vieira da Silva...por Arpad, um dos amores mais belamente serenos, livres, profundos e criadores que se conhecem entre artistas. Apesar dos labirintos de Vieira da Silva, já se encontraram na eterna biblioteca e, um longo maravilhado e sempre inicial sorriso selou o seu reencontro. Parece que continuam a amar-se de todas as cores da eternidade.















Ah! Esquecia-me de um pormenor: têm um grande casal amigo , apesar de ela continuar a gostar imenso de voar de felicidade nos quadros dele, mesmo deles sair, e como tal, difícil conversar de pés no chão, ou tomar uma simples chávena de chã. Ele diz que não se importa de continuar como por magia a segurar o seu amor por uma só mão. Etéreo, leve e imaculado o seu amor.
Pois é, na eternidade, grandes amigos de Helena e Arpad ...
Marc Chagall e Bella Rosenfeld.






Sábado, 6 de Dezembro de 2008

Purificação...

dos meus sentidos,sobretudo, libertação de dissonâncias auditivas dos últimos dias, colírio no meu poluído olhar, serenidade táctil que só a criação do belo pode trazer. Revisitação pela noite adentro desse admirável "Mãe e Filho" de Aleksandr Sokurov.
Depois, madrugada fora, com um quente Russian Earl Grey" deixar esse sabor bom da emoção aninhar-se cá dentro sem pedir meças, aspirar essa sensação tímida e grandiosa ao mesmo tempo de plenitude, de reencontro com aquele de mim que por vezes arredio por fugido e distraído se confunde com um outro que também vou sendo. Talvez envelhecer seja isso...a corrida mais compassada de um meu eu mais sensato , mais terno, mais verdadeiro, a tentar apanhar o outro mais gaiato, mais apressado, mais eterno.Lá chegarei mais trôpego, mais enrugado, mais humano à meta da junção dos dois. Sem impaciência, sem medo, sem remorsos.O meu suave declive.

Reflexões sobre uma Jóia

MÃE E FILHO,Aleksandr Sokurov

Silêncio e solidão;

Plano, planos, fruição visual da imagem

O sopro a brisa da paisagem ou da vida que se esvai

A ternura do laço cada vez mais forte e cada vez mais fraco

O verde

A mãe, o filho, quase a necessidade do reaninhar uterino

As poucas palavras a ganharem sentido no deserto do verde

A opressão da vastidão paisagística

A porta como saída ou entrada da vida , para a morte

O céu de chumbo, a ternura do gesto e do beijo

O sono e os breves momentos do acordar-medo de morrer

O sentido da vida e razões da morte

Os elos de um sangue

O céu ainda mais ameaçador-um homem e os caminhoas do seu destino

O ir e o ficar, aceitação de uma solidão para sempre, a tarefa a cumprir

Deus presente e ausente, o sonho ou a impossibilidade dele

A paragem, o gelo, a alma e a suspensão do tempo

A fresta de sol reconciliadora

O veleiro, barco de infância, ânsia de partida, da mãe

A impossibilidade de apanhar a morte

O não ver para ficar na dor de se ser só

As mãos como dádiva, como aconchego

A morte e o aprisionamento do voo da borboleta

A essência desse voo algures

A consciência do tempo da morte e do seu reencontro

Irremediavelmente sós na vida.

(Existente Instante)



Terça-feira, 25 de Novembro de 2008

TAO


庄子 莊子