quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

HISTÓRIA SEGUNDO R...


Aproximou-se tímida, mas resoluta. Gostava que lesse alguns dos seus escritos. Não bem um diário, mas acervos , arbustos de angústia, perplexidades angulosas na vida de uma adolescente.

Li, orgulhoso pela confiança. E passados dias, num simples olhar silencioso entreguei-lhe esta carta. Com outro olhar-sorriso de “meu professor” , dialogou comigo no dia a seguir.

Nunca mais nos esquecemos.



Só, no seu quarto, R...olhou atentamente o espelho...

Alguém estava do lado de lá! Parecia-lhe ela própria e não outra, todavia um ligeiro descentrar dos contornos e um olhar acolhedor, diferente da surpresa do seu, fê-la perceber que era outra e não ela própria!

R... do lado de lá, sorriu para R...do lado de cá, que se mantinha estranhamente serena e convidou-a a entrar no espelho...lembrança vaga de uma história conhecida. R... do lado de lá parecia-lhe familiar...uma Amiga conhecida de longa data. Porque não!? Entrou...


Cone de luz vertiginoso, espaço-tempo centrifugado. Um espaço escuro a ultrapassar, pareceu-lhe, ou pelo menos teve dele consciência. Vontade de o ultrapassar, mas ao mesmo tempo, nostalgia de o explorar, de regressar a ele! Sensação esquisita! O que seria? O que seria que a impelia para diante e ao mesmo tempo lhe queria refrear o passo?

Sentiu refluir no tempo, sem sair do tempo. Sentia uma tristeza estranha por deixar algo para trás, mas também uma alegria incontida de caminhar para algo de novo que pressentia complexa, irremediável , bela no seu mistério! O que seria?


Na confusão da viagem, pareceu-lhe vislumbrar uma criança de bibe que ao longe lhe acenava um adeus. Não teve tempo de retribuir, porque deu por si no alto de uma falésia, alta, verde, diáfana. Em redor uma paisagem indescritível, etérea, morada de deuses não conhecidos.

A amiga R... do lado de lá tinha desaparecido. Estava só! Ou talvez não estivesse, porque sentiu-a em si, como se os contornos desfocados tivessem confluído na sua pessoa - era ela com a outra! Agora nem o lado de lá, nem o lado de cá, una, simplesmente o lado do Eu!

Mesmo no pico da falésia...


Sentia-se livre, mas estranhamente só! Apeteceu-lhe gritar, como gostava de gritar- de braços abertos à brisa que entretanto se fazia sentir! E gritou...


Um brado longo...uma palavra apenas agreste, que se repercutiu em ondas sucessivas até se perderem de ouvido. Raiva...Raiv...Rai...Ra...R...! Na magia do local, o eco trazia-lhe não os contornos acentuados do R inicial, pelo qual começava curiosamente o seu nome, mas palavras em ondas sucessivas de R, ciciadas ao vento...Raiz... Reconforto...Reconstrução...Raridade...Razão...Raiar...Ramo...Ré maior!

Sentiu-se melhor, apesar de uma melancolia agitada já conhecida e que a invadia amiudamente, prelúdio de uma serenidade sideral que haveria de vir. Não se enganava, contudo. Ela, a raiva, haveria de voltar, porque ela volta sempre, mas agora começava a sentir-se preparada para a aceitar, porque tinha descoberto que a serenidade nascia da raiva expulsa, a paz, da dor domada!


Olhou em volta, agora sentia-se bem, diferente, alguém! Alguém muito próprio, única, entre iguais! Queria ser assim, sabia ser possível ser assim, haveria de ser assim!

Sentiu-se grande como o Universo e o Mundo pequenino cabia em si, mas outro Mundo enorme, misterioso, abria-se ao seu fascínio e isso fez sentir-se pequenina! Era isso ! A grandeza ou a pequenez do Mundo dependia da pequenez ou grandeza d' Alma de cada ser e isso torna-nos únicos, irrepetíveis! R... era R... única e irrepetível, e isso fê-la sentir um arrepio de orgulho e medo, pela responsabilidade que passaria a carregar em si! Aceitaria o desafio, que cobardia não teria jamais guarida em R...!!

Tinha fome, mas uma fome estranha, não física, indecifrável, indizível. Era uma fome de respostas a porquês, mesmo os nunca formulados, e isso inquietava-a.


Uma voz terna, sussurrante, balsâmica, calmou-a. Uma voz ou o vento? Numa fímbria de nuvens algodoadas, pareceu-lhe vislumbrar o rosto luminoso de Atena que lhe sorria. " R... a luz não foge aos eleitos! O caminho pode parecer longo e tortuoso, mas procura-a sempre, sempre, sempre, até encontrares o reino dos S. O crescimento interior orientará o teu caminho, até à Sabedoria, Sensibilidade, Serenidade!" Ouviu, ou pareceu-lhe ouvir, pois abriu os olhos com a mãe a acordá-la suavemente, para a "canseira do dia a dia". Levantou-se leve, olhou o sol radioso da manhã, sorriu e mirou-se ao espelho...alguém do outro lado piscou-lhe o olho! Espalmou a sua mão ternamente no espelho deixando a sua impressão digital .


Estava feliz !


O Mundo lá fora podia contar com o dentro combativo de Si !





5 comentários:

Raul Martins disse...

Belo texto.
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A descoberta de nós próprios, do nossos interior, é sem dúvida uma grande aventura... Uma tarefa de toda uma vida... desde o tempo de criança até o momento em que a Sabedoria maior nos chame. Felizes os que conseguem nunca perder a luz no seu horizonte.
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E que a luz nunca nos fuja.
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Carpe diem!

IC disse...

Caro EI, creio que adivinhaste que me faria bem ler este texto tão belo. Não sei se senti mais sol, como me sugeriste no meu cantinho, pois já só sinto o sol de Outono, mas sei que o crescimento interior não cessa ao longo de todo o caminho. E já aprendi que a vida é um longo caminhar até à serenidade, mesmo que nunca alcancemos a luz, muito menos as respostas aos tantos porquês.
E fiquei a olhar estas palavras: "Na confusão da viagem, pareceu-lhe vislumbrar uma criança de bibe que ao longe lhe acenava um adeus". Tocaram-me porque penso que a criança de bibe vai estando sempre algures mesmo quando já não a vemos, e às vezes penso também que no final do caminho é ela que reencontraremos.

Vida Suspensa disse...

Dois textos lindíssimos, "História segundo R..." e o comentário de IC. Parabéns aos dois

Anônimo disse...

http://bulimunda.wordpress.com/2009/02/15/waking-life-livre-arbitrio-legendado/

Fátima André disse...

Venho trazer um coelhinho de Páscoa. Está na minha salinha.
Boa pausa lectiva e excelente Páscoa!