segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Recusado...Adiado


Cometi um pecado na passada semana. Exactamente o mesmo pecado que recomendo aos meus alunos não cometer. Não misturar a Obra com o Homem, apreciar a poesia, a música, a pintura, sem muitas vezes entrar nos meandros mais profundos da vida real da personagem artística. Confesso que só tardiamente e com suficiente formação, consegui separar as águas, onde elas deveriam ser separadas, entre a realidade e a estética, entre o fingimento artístico e a vidinha que deus nos deu para “ser vivida”.


Assim na Bertrand com dinheiro de Professor que não abunda e dois excelentes livros de poesia, por acaso recolha da obra de dois grandes poetas infelizmente pouco conhecidos. Depois da leitura, reeleitura, de vários poemas, a escolha de um livro pela recusa de outro. E o recusado foi : “ O Sentido Da Vida É Só Cantar” do António Baharona.


Acontece que já para uns anitos tenho com o homem Barahona um certo parcialismo, desde que ele defendeu encarniçadamente em entrevistas ( agora diz na entrevista à Ler que não foi bem isso, que foi mal interpretado e blá, blá, blá, quando me lembro perfeitamente da sua posição) a "fatwa" do aiatolá Ruholah Khomeini contra Salman Rushdie, desde alguns escritos polémicos que apareceram na Net sobre assuntos controversos como o Aborto etc.


Homem virado para a polémica, para uma certa marginalidade, para um sentido-vida, vida sentida, que muitas vezes descampa no coração à boca, a entrevista que afirma última que deu à Ler 75 de Dezembro, tem momentos assombrosos, diria momentos à Barahona, não sei se desculpáveis ou não.
Claro que nutro pelo poeta, pelo estudioso da literatura ( até hoje a melhor edição e até análise do Livro de Cesário Verde e, ofereçam-no a esse portento de ignorância dondoca, amada por muitos docentes na mesma dose de ignorância, MFM ), pelo poeta de canções ( do Zeca, por exemplo) e até pelo actor-recitante, no belíssimo “Conversa Acabada de João Botelho ( faz de (Pessoa Ortónimo (Leitor)) – todavia declarações como:

“ Eu hoje diria: viva Salazar” ( com gargalhada e tudo),

“ Porque eu acho Salazar foi o último político honesto que teve Portugal” (...) O homem podia ter realmente defeitos-e tinha (quais não diz) – mas também tinha virtudes. Uma delas era a honestidade. “ (de que tipo? Com que máscaras?)


(...) Vale mais uma página de qualquer discurso de Salazar do que toda a obra de Saramago. Estilisticamente. O autor de cabeceira do Salazar era o Padre António Vieira. Se ler qualquer dos discursos do Salazar lê Português. Que é uma coisa que já raramente se encontra. É um clássico.” ( quem, o Vieira ou os discursos do Salazar-questão minha. Depois, se o Barahona ler os “Segredos da Cozinha Tradicional Portuguesa” da Maria de Lurdes Modesto, também lê Português!)


Assim, uma certa raiva a invadir-me com “ O Sentido Da Vida É Só Cantar” na mão e ainda por cima com o raio do Pacheco Pereira a atormentar-me e bem, com recente cronicar no Opinião do Público em que afirma “ (...)Tem crescido depois do 25 de Abril uma salazarofilia popular, antipolítica, demagógica e justicialista (...), o que ainda pude constar vai para dias, num blogue com comentários de alguns colegas sobre disciplina na escola, que para ser sedoso, raiavam a ignorância, o desespero e mesmo ideias fascizantes - só faltava a perpétua e o fuzilamento. Mete-me tanta impressão ao longo de anos, nas salas de professores, ainda ouvir desabafos tão tristemente idiotas de alguns colegas, poucos felizmente, que “isto iria lá com um Salazar”, que nesse tempo sim, havia isto e aquilo...pois “no tempo do Salazar nem se podia respirar” disse a alguns que me olharam com parede de fuzilamento à vista.


Pronto, pecado cometido, decisão tomada, o livro de António Barahona recusado, vá lá... adiado, porque é sem dúvida um grande poeta, um enorme poeta. Estes dois belíssimos poemas são uma homenagem ao poeta e remissão do meu pecado.

REAPARIÇÃO DE CESÁRIO VERDE

Na alvura do piquenique
houve esta coisa simplesmente bela:
o voo duma borboleta a pique
no alvo da aguarela

O Sentido da Vida é só Cantar, Assírio & Alvim, 2008



MATRIMÓNIO DAS LUZES

XI

Que a vida chega ao fim, em qualquer momento,
não é novidade nenhuma nem sequer um susto,
mas apenas consciência do luto prévio
e previdente pano de fundo do meu trabalho

Que a vida chega ao fim, que pode ser princípio
e outras frases que tais que trazem água no bico,
não é novidade nenhuma para quem é um passarão
disposto a não morrer mesmo depois de morto

Que a vida não me chega e só o amor alcança
sem medir a distância e a duração do voo


Para terminar, quem escreve assim sobre Cesário, sabe do que fala, do que leu, do que “Cesarianou”. Barahona, claro.

“Cesário era um poeta de subtracção e não de acumulação, que escrevia, com caneta de molhar no tinteiro e , em vez de tesoura, usava uma navalha afiada de ponta e mola, previamente untada com azeite, para cortar cerce as excrescências dos poemas"


Ah! o Poeta escolhido na compra, ficará para depois.



3 comentários:

Vida Suspensa disse...

E, não se arrependeu da escolha feita. Apesar de haver pessoas que acham que não se deve fazer, convido-o a visitar, na Vida Suspensa "La fête avec Chagall" e também espero que não se arrependa.

Vida Suspensa disse...

Fale sempre a pena ler o que escreve, mesmo noutros blogues (terrear).

Vida Suspensa disse...

Viens, fais la fête Viens dancer toujours
Célébrer l'amour
Séche tes larmes

Regarde autour de toi
Souris à n'importe quoi
Il faut toucher les choses
Bois ton vin
Sens tes roses
Suis les mots, du poète
Prends la vie
Fais la fête
Viens, vis la valse
Vis l'éclat des jours
Viens chanter l'amour
Ouvre tes portes
Reçois la vie chez toi
Gonfle ton coeur de joie
Il faut toucher les choses
Bois ton vin
Sens tes roses
Suis les mots, du poète
Prends la vie
Fais la fête

Rodrigo Leão

Com música e com Chagall só em Vida Suspensa e vejam se quebram esse silêncio