quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Tranströmer Tomas


Vejo na SIC a inefável Inês Pedrosa, directora da casa Fernando Pessoa ou lá o que é, e rio à gargalhada. Que não conhecia, que foi ver uns poemazinhos , mas que a tradução isto e aquilo, e a conversa a desviar para o Nobel literário ser mais "homenzarrão" do que feminino e isto e aquilo. Lembrei-me do "porque não te calas", mas também do provérbio chinês "Sabes porque é que o bombo faz tanto barulho? - porque é OCO". Para que vai uma pseudo-intelectual a uma TV falar do que não conhece, não sabe, nem sonhava que existia? Não bastava o "pivot"? Era preciso o "pechisbeque intelectualeiro" para dar encenação à cena? Bolas! Já não bastava o translúcido Viegas a secretariar?

Pois bastava à dita cuja ter um pequeno e belíssimo livro que qualquer biblioteca mediana de poesia deveria ter, para fazer vistaço. "21 Poetas Suecos" da Vega, com traduções chanceladas e magníficas de Almeida Faria, Ana Hatherly, Casimiro de Brito, Teresa Salema e Vasco de Graça Moura.


Sim, um extraordinário poeta, que devido a este livro comecei a seguir em inglês e francês, principalmente através dos paperback da Bloodaxe, ou da Castor. Poeta da concisão, sim, mas também do fôlego e do fulgor que só um fractal de momento pode trazer. Lembrei-me da Gabriela LLansol - um poeta de cenas fulgor. Um poeta luminoso de sombra, das grandes paisagens e metrópoles, reduzidas a um dentro contar-se. Um poeta de fina ironia recusa do lugar comum, de "resistência" pelo belo da palavra.

9 poemas desse livro:

As pedras

As pedras que lançámos, ouço-as
cair claras como o vidro pêlos anos fora. No vale
voam agitados os gestos do momento
gritando de copa para copa, calando-se
ao fino ar desse momento, deslizando
como andorinhas de cume para cume até alcançarem
os planaltos extremos
ao longo da fronteira da existência. Aí caem
claros como o vidro
os nossos actos
ao encontro apenas do chão
que nós próprios somos.

( trad: Teresa Salema)

Kyrie

A minha vida às vezes abria os olhos no escuro.

Uma sensação de multidões arrastando-se por ruas,

cegas e sem descanço, no caminho para um milagre,

enquanto eu fico aqui, invisível.

Como uma criança que adormece aterrorizada

à escuta dos passos pesados do coração,

até que a manhã ponha o seu raio de luz nos fechos

e as portas da escuridão se abram.

(V.G.M.)


Aquele que acordou com o canto sobre os telhados


Manhã, chuva de Maio. A cidade está calma

como uma cabana. Ruas tranquilas. No céu

troa azul-verde um motor de avião—a janela está aberta.

O sonho onde se dorme de membros estendidos

torna-se transparente. Move-se, tateia

pêlos instrumentos da visão — quase no espaço.

(T.S.)

Lisboa


No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam

[nas calçadas íngremes.

Havia lá duas cadeias. Uma era para ladrões.

Acenavam através das grades.

Gritavam que lhes tirassem o retrato.

«Mas aqui», disse o condutor e riu à socapa como se

[cortado ao meio,

«aqui estão políticos». Vi a fachada, a fachada, a fachada

e lá no cimo um homem à janela,

tinha um óculo e olhava para o mar.

Roupa branca no azul. Os muros quentes.

As moscas liam cartas microscópicas.

Seis anos mais tarde perguntei a uma senhora de Lisboa:

«será verdade ou só um sonho meu?»

(V.G.M.)

Allegro

Toco Haydn depois de um dia sombrio

e sinto um calor simples nas mãos


Há um querer nas teclas. Brandos martelos batem.

O som é verde, tranquilo e animado.


O som afirma que a liberdade existe

e que alguém não paga a César os impostos


Enfio as mãos nas minhas algibeiras de Haydn

imito alguém a olhar o mundo calmamente.


Iço a bandeira de Haydn — quer dizer:

Nós cá não nos rendemos. Mas queremos paz.


A música é uma casa de vidro no declive

por onde pedras voam, pedras rolam.


E as pedras atravessam as vidraças

mas cada vidro vai ficando intacto.

(V.G.M.)

Quando a neve derreteu 66


Queda precipício de água ruído velha hipnose.

O rio inunda o cemitério de automóveis, brilha atrás das máscaras.

Seguro-me ao parapeito da ponte.

A ponte: um grande pássaro de ferro que veleja

[pela morte.

(T.S.)

O casal


Apagam a luz e o vidro branco da lâmpada cintila

um momento até se dissolver

como uma aspirina num copo de breu. Então elevam-se.

As paredes do hotel deslizam para o céu escuro.

Os gestos de amor esbateram-se e eles dormem

mas os seus pensamentos mais secretos encontram-se

como duas cores que se encontram e penetram

no papel molhado de um desenho infantil.

Está calmo e escuro. Mas esta noite a cidade

aproximou-se. Com janelas apagadas. As casas vieram.

Uma multidão de rosto inexpressivo

mantém suspensa a sua vigilância.

(T.S.)

Montes negros


Na curva seguinte saltou da sombra fria da montanha

o focinho virou contra o sol e rugindo rastejou para cima,

íamos apertados no autocarro. Também lá estava o busto

[do ditador

envolto em papel de jornal. De boca para boca ia uma

[garrafa.

O sinal de morte crescia em todos a diferentes

[velocidades.

No cimo das montanhas o mar azul agarrou-se ao céu.

(A.F.)

Citoyens


Na noite depois do acidente sonhei com um homem

[bexigoso

que caminhava nas vielas cantando.

Danton!

Não o outro — Robespierre não faz passeios desses,

Robespierre faz a sua meticulosa toilette uma hora

cada manhã. O resto do dia devota-o ao Povo.

No paraíso dos panfletos, entre as máquinas da virtude.

Danton —

ou aquele que trazia a sua máscara —

parecia alçado em andas.

Vi a sua face desde baixo.

Lua bexigosa, metade luz, metade luto.

Eu queria dizer qualquer coisa.

Um peso no peito, peso

que faz avançar os relógios,

rodar os ponteiros: ano 1, ano 2...

Um cheiro intenso como serradura na jaula dos tigres.

E—como sempre no sonho—nenhum sol.

Mas os muros brilhavam

nas vielas que viravam

descendo para a sala de espera, a sala curva,

a sala de espera onde todos nós...

(A.F.)

PS. Pode ser que para o ano ganhe o maravilhoso Sándor Kányádi, e talvez um inefável MST, ou um qualquer Arouca, ou mesmo uma alforreca MRP, estejam numa TV perto de si num plano aplainado a "arrotar" pescadinhas fritas à la nobel!

Como sinto falta de vós Pacheco e Cesariny!




5 comentários:

Raul Emilio Martins disse...

Confesso que não o conhecia (já não te admiras de quanto é a minha ignorância - mas nunca é tarde para aqui vir buscar caminhos enriquecedores...Como de outras vezes, como a Llansol que também aqui conheci algures. Obrigado pela partilha dos poemas que aqui deixas a partir da antologia que citas.

ematejoca disse...

Tomas Tranströmer é o maior poeta sueco vivo, mesmo que em Portugal seja um desconhecido, sendo desde há muitos anos considerado favorito.

O que me irrita é que, quando os portugueses não conhecem o vencedor ou a vencedora (como foi o caso da Herta Müller), então acham que a escolha foi errada.
Valha-nos Deus com estes pseudo-intelectuais.

Eu cá fiquei muito satisfeita por um POETA ter ganho o Nobel, pois já não era sem tempo, depois de 15 anos de espera.

IC disse...

Caríssimo EI
Não vi na Sic a "inefável", mas bendito convite da Sic, pois fez-te voltar aqui após uma dessas prolongadas ausências que respeito mas... maldigo :)
A riqueza do que escreves (e do que disponibilizas) associada a esse teu delicioso humor satírico é sempre imperdível.

Como o Raul, também confesso que não conhecia o poeta, sendo a atribuição do Nobel que me fez começar em pesquisas.

Se puderes, não "fujas" outra vez!

Henrique Santos disse...

Obrigado pelos poemas. Não conhecia e gostei muito.

Anônimo disse...

Proponho um monumento à inefével senhora LAIVOS/SINFONIAS por pelo seu blog nos ter dado a conhecer algo que passávamos bem sem isso.

Eheh...

PIKA/DeepD...