Ainda do Poeta citado, e mesmo escandalizando as crentes almas partidárias, o que em grande medida penso da política portuguesa e de uma boa parte dos políticos portugueses:
“Não confio nos políticos. Deviam ocupar-se dos mitos (onde se integram as aspirações profundas dos humanos) e contentam-se com os ritos. Deviam preocupar-se com a liberdade e com o destino das pessoas e das comunidades e apenas investem no bem e nos bens próprios e das suas famílias. Deviam defender ideias e defendem pontos de vista. Deviam afastar-se do dogmático e dos tabus e dos fanatismos e é neles que, em nome do simplismo das maiorias, se atolam. Deviam ser sábios, tratando do equilíbrio entre o Bem e o Mal, entre a Verdade e a Mentira, e não passam de crianças maniqueístas que dividem os outros entre fadas boas e lobos maus. Prometem a salvação em troca do voto e o que fazem é salvar-se com o voto quase sempre roubado, angariado por via da mentira de imagens que não passam de miragens. Talvez abra algumas excepções, mas sei que, fazendo-o, estou a abrir uma caixa onde se metem todos os que por acaso me leiam. Que todos eles, por mais primários e vetustos que sejam, se julgam detentores da justiça e da bondade.
Apetece-me citar Marco Aurélio: "Ninguém possa dizer de ti com verdade que não és um homem recto, um homem de bem; mas faz que seja um mentiroso o que tiver de ti tal opinião. Depende inteiramente de ti. Pois quem é que te impede de ser homem recto e bom? Só tens que prometer não querer viver, se não fores tal homem, porque a razão não exige que vivas, se o não fores."
Não, não é só ao “menino açoitado” que dedico um sarcasmo especial. Também do “lado mais floral”, existem figuras políticas pelas quais nutro um desprezo e uma ácida ironia, que provêm de ter lido o que defendiam, o que pensavam e, o que hoje se transformaram em executores de prática política. Alguns, no poder ou na oposição, são aquilo a que já no século XVI Erasmo apelidava de “raça vil e rastejante” – os cortesãos. Quantos e tantos nos partidos d’ hoje! Vejam se reconhecem o autor este belo naco de prosa de 1995!
“Ademais, há sempre uma coisa que se fica a saber, em cada verão - neste, por exemplo, com eleições à porta (...), topa-se que o Portas é fino, fica bem tratá-lo por Paulo nas entrevistas, mas o Pacheco Pereira não, ninguém se lembra de lhe chamar ó José!, é Pacheco Pereira e vamos embora que é tarde.
Mesmo finos, os candidatos a salvadores da Pátria têm de descer ao povoado, comovem tanto as sensações dos beijinhos às massas que eles nos comunicam nos seus artigos de campanha, a isto se chama ser mediático, e são tão sinceros na sua imersão no real, querem à viva força pertencer às colectividades, ler a imprensa regional, visitar os mercados, defender os interesses dos distritos! As férias, para eles, não duraram o Agosto todo, antes da campanha é preciso fazer a pré-campanha e antes da pré-campanha é preciso fazer a pré-pré-campanha.
As coisas estão por decidir e por isso já era possível ver, no Oeste, uma faixa posta para as visitas dos candidatos: "Saudamos o futuro primeiro-ministro". Sem mais especificação, que é grande a sabedoria do povo português, e assim, qualquer que ele seja, sempre lhe fica a obrigação moral de atender ao fontanário.
Ai belo Agosto, que acabaste! Agora, que os fogos esmorecem, a praia não convida e o trabalho nos constrange, recomeça o ciclo dos disparates que já não podemos desculpar porque já não estamos de toalha ao ombro.
O PP continua a brincar com a fogueira da demagogia populista. O PC, amarrado ao "tempo, volta para trás". O PSD tenta que nada se discuta e nada se proponha, enquanto as facas se preparam para o dia seguinte à derrota. O PS cultiva a vocação suicida, em honra da qual sempre que há alguma possibilidade de vitória saem dois ou três baronetes de terceira apanha a distribuir trunfos pêlos adversários.
Face ao que, e ao que cada um de nós tem de suportar, no emprego, no trânsito, no tele-lixo e quejandos, resta praticar as virtudes teologais em onze meses do ano: a paciência para com os pobres de espírito e a esperança em que a gente com ideias e coragem não seja esmagada no caminho. “
Claro que quem não muda é burro, dir-me-ão alguns, mas mudar, perdendo a essência das ideias, de projectos de vida, de ética de construção interior, custa-me aceitar, adepto que sou do “Homem de um Só Rosto e uma só Fé” , com a interpretação que lhe atribuo, e que me desculpe o Sá de Miranda.
Pois é, este belo naco de prosa é de um actual Ministro, que ainda cheguei a conhecer como brilhante aluno de História na FLUP. Sobre as crónicas esclarecidas que escrevia no Público nos anos de 95-96, e os disparates e dislates que foi somando no seu reportório, e, sobretudo sobre a sua ascensão como independente via Estados Gerais a figura tutelar e indefectível do actual partido do governo, vai uma distância de um enorme esgar no meu rosto, que nem sequer é de riso, aqui com o pequeno livro à minha frente. Uma irritação inexorável em mim quando vejo esta personagem.
Novamente, com o poeta “Os políticos estão completamente prostituídos: enfeitam-se para a praça pública, engolem tudo e cobram sempre. Talvez eu não deva generalizar.”
E a tirada do jovem tribuno, futuro líder e "bruxeleante", fez-me lembrar o que um dos meus poetas preferidos escreveu vai para um par de anos, só discordando dele no que respeita à "leitura apressada"...leitura nenhuma!
"A miséria da política resulta de ser filha dos princípios mas súbdita do cálculo - de almejar a harmonia mas atolar-se no caos - de afirmar o bem (os ideais) e praticar o dolo e a mentira - de se preocupar com a imagem esquecendo-se da substância - de ser adjectiva e decorativa e raramente essencial e discreta - de se preocupar, enfim, com os interesses pessoais ou de família ou de classe passando por cima do bem comum. O maior erro dos políticos é julgarem que o último discurso ou a última imagem apagam o que fizeram antes. E pena que não tenham lido a seu tempo Antígona, de Sófocles. E que se tenham ficado por uma leitura apressada de Maquiavel."
Figura anafada,"apipada", futuro líder e brilhante, dizem. Numa pretensa universidade de veraneio, perante veraneantes futuros jovens e inestéticos políticos, a "boutade" armada em cultura filosófica :"A política é autónoma da ética e a ética é autónoma da política", recordando Maquiavel ( quem poderia ser?) e dando um ar da sua graça com recurso a dois filósofos gregos que aconselhava os políticos ler.
Pois... entendi-te perfeitamente, caro político com ou sem brilhantina e de futuro radioso. Comecei a rir porque quase de certeza, o jovem político brilhante e anafado tem a célebre colecção da Gradiva "O Especialista Instantâneo em Filosofia".
Numa próxima universidade de praia sairá a dissertar sobre a "Arte da Fuga" de Bach, ou sobre o phatos irónico na obra de Walter Dahn, ou Dokoupil. Não duvido nem um segundo que o brilho "Bruxeleante" manter-se-á , pois com esta colecção, o jovem mancebo e revelação política ficará com " os conhecimentos necessários para brilhar em qualquer situação", ou mesmo " permitir-lhe passar por um especialista em quase tudo", quando não, conseguir " manter uma conversa sobre qualquer assunto, sem pôr em causa a sua reputação".
Como não gostar dos políticos? Como não ficar fascinado com "violinos de Chopin", a "Utopia" do Thomas Mann ?
Aproximou-se tímida, mas resoluta. Gostava que lesse alguns dos seus escritos. Não bem um diário, mas acervos , arbustos de angústia, perplexidades angulosas na vida de uma adolescente.
Li, orgulhoso pela confiança. E passados dias, num simples olhar silencioso entreguei-lhe esta carta. Com outro olhar-sorriso de “meu professor” , dialogou comigo no dia a seguir.
Nunca mais nos esquecemos.
Só, no seu quarto, R...olhou atentamente o espelho...
Alguém estava do lado de lá! Parecia-lhe ela própria e não outra, todavia um ligeiro descentrar dos contornos e um olhar acolhedor, diferente da surpresa do seu, fê-la perceber que era outra e não ela própria!
R... do lado de lá, sorriu para R...do lado de cá, que se mantinha estranhamente serena e convidou-a a entrar no espelho...lembrança vaga de uma história conhecida. R... do lado de lá parecia-lhe familiar...uma Amiga conhecida de longa data. Porque não!? Entrou...
Cone de luz vertiginoso, espaço-tempo centrifugado. Um espaço escuro a ultrapassar, pareceu-lhe, ou pelo menos teve dele consciência. Vontade de o ultrapassar, mas ao mesmo tempo, nostalgia de o explorar, de regressar a ele! Sensação esquisita! O que seria? O que seria que a impelia para diante e ao mesmo tempo lhe queria refrear o passo?
Sentiu refluir no tempo, sem sair do tempo. Sentia uma tristeza estranha por deixar algo para trás, mas também uma alegria incontida de caminhar para algo de novo que pressentia complexa, irremediável , bela no seu mistério! O que seria?
Na confusão da viagem, pareceu-lhe vislumbrar uma criança de bibe que ao longe lhe acenava um adeus. Não teve tempo de retribuir, porque deu por si no alto de uma falésia, alta, verde, diáfana. Em redor uma paisagem indescritível, etérea, morada de deuses não conhecidos.
A amiga R... do lado de lá tinha desaparecido. Estava só! Ou talvez não estivesse, porque sentiu-a em si, como se os contornos desfocados tivessem confluído na sua pessoa - era ela com a outra! Agora nem o lado de lá, nem o lado de cá, una, simplesmente o lado do Eu!
Mesmo no pico da falésia...
Sentia-se livre, mas estranhamente só! Apeteceu-lhe gritar, como gostava de gritar- de braços abertos à brisa que entretanto se fazia sentir! E gritou...
Um brado longo...uma palavra apenas agreste, que se repercutiu em ondas sucessivas até se perderem de ouvido. Raiva...Raiv...Rai...Ra...R...! Na magia do local, o eco trazia-lhe não os contornos acentuados do R inicial, pelo qual começava curiosamenteo seu nome, mas palavras em ondas sucessivas de R, ciciadas ao vento...Raiz... Reconforto...Reconstrução...Raridade...Razão...Raiar...Ramo...Ré maior!
Sentiu-se melhor, apesar de uma melancolia agitada já conhecida e que a invadia amiudamente, prelúdio de uma serenidade sideral que haveria de vir. Não se enganava, contudo. Ela, a raiva, haveria de voltar, porque ela volta sempre, mas agora começava a sentir-se preparada para a aceitar, porque tinha descoberto que a serenidade nascia da raiva expulsa, a paz, da dor domada!
Olhou em volta, agora sentia-se bem, diferente, alguém! Alguém muito próprio, única, entre iguais! Queria ser assim, sabia ser possível ser assim, haveria de ser assim!
Sentiu-se grande como o Universo e o Mundo pequenino cabia em si, mas outro Mundo enorme, misterioso, abria-se ao seu fascínio e isso fez sentir-se pequenina! Era isso ! A grandeza ou a pequenez do Mundo dependia da pequenez ou grandeza d' Alma de cada ser e isso torna-nos únicos, irrepetíveis! R... era R... única e irrepetível, e isso fê-la sentir um arrepio de orgulho e medo, pela responsabilidade que passaria a carregar em si! Aceitaria o desafio, que cobardia não teria jamais guarida em R...!!
Tinha fome, mas uma fome estranha, não física, indecifrável, indizível. Era uma fome de respostas a porquês, mesmo os nunca formulados, e isso inquietava-a.
Uma voz terna, sussurrante, balsâmica, calmou-a. Uma voz ou o vento? Numa fímbria de nuvens algodoadas, pareceu-lhe vislumbrar o rosto luminoso de Atena que lhe sorria. " R... a luz não foge aos eleitos! O caminho pode parecer longo e tortuoso, mas procura-a sempre, sempre, sempre, até encontrares o reino dos S. O crescimento interior orientará o teu caminho, até à Sabedoria, Sensibilidade, Serenidade!" Ouviu, ou pareceu-lhe ouvir, pois abriu os olhos com a mãe a acordá-la suavemente, para a "canseira do dia a dia". Levantou-se leve, olhou o sol radioso da manhã, sorriu e mirou-se ao espelho...alguém do outro lado piscou-lhe o olho! Espalmou a sua mão ternamente no espelho deixando a sua impressão digital .
Estava feliz !
O Mundo lá fora podia contar com o dentro combativo de Si !