sexta-feira, 23 de maio de 2008

AMAR...DREYER


Por vezes é obrigatório ser assim. Sem mais. Uma espécie de “vá para fora, cá dentro” porque sim. E o cá dentro deste alargado fim-de-semana foi o revisitar de Carl Theodor Dreyer e os seus “Gertrud “, e “Dia de Cólera”, bem como o magnífico documentário de de Torben Skjodt Jensen “ Carl Dreyer- O meu Ofício”. E só o não foi mais, porque o “Ordet” ( A Palavra) e “La Passion de Jeanne D’Arc”, já foram tantas vezes amados de olhar, que até tenho vergonha de dizer quantas.


Dreyer consegue emoção no eu de mim, o que não é pouco, pois o riso e o fastio da banalidade e mediocridade, não raro esbarram no filtro que impus no aproveitar do tempo. E vou sendo um polícia da minha temporal qualidade de aproveitar esse grande escultor, enquanto ele vai de maço e escopo talhando veias em mim.Envelhecer pateta e pateticamente, nunca.


Assim, Dreyer e a Fé, a sua serenidade inquieta, a seu arrastar interior de sentimentos contraditórios, as suas dúvidas da incomunicabilidade das almas, o isolamento existencial ou a solidão primária da existência, o amor, ou sonho feliz dele, mas também a renúncia como forma de salvação, a memória como sonho ausente-presente, e a esperança, mesmo no abandono de si, interrogam e interrogam-me como olhar atento e sensível. Temas tão actuais hoje como ao longo das décadas de filmografia deste grande realizador dinamarquês.


Numa época de tanto “detergente” cinematográfico, de tanto “ low-kick” cinéfilo, de tanto efeito especial para especialmente enganar olhar e sentido de espectador, de tanta imagem por segundo vulgarizada de cinema de Centro Comercial, Dreyer, é-me essencial na minha arte de respiração, como o são Visconti, Bergman, Rossellini, Antonioni, Fellini, Max Ophüls, Kazan, Renoir, ou Allen.

Pronto...gostos não se discutem. Mas pelo menos, deixem-me rir levemente deste ditado.

DE GERTRUDE

(Entra Axel Nygren (amigo de Juventude))

Gertrude: - Aqui vivo como uma eremita, esquecida, apagada. È assim que me convém. Preciso de solidão e liberdade.

(Axel e Gertrude sentam-se num banco de madeira. Ela pega-lhe ternamente na mão)

Gertrude : - A nossa amizade sobreviveu ao tempo (30-40 anos)

Axel: - Uma amizade que nunca foi amor.

Gertrude: - Mas tu foste para mim um grande amigo...

Axel: - Ainda és jovem, a tua pele é branca e lisa.

Gertrude: - Vou ter mais rugas e a minha pele empalidecerá!

(Ela entrega-lhe as cartas que ele lhe escreveu ao longo dos tempos, e ele queima-as na lareira)

Axel: - Nuca pensaste em escrever um poema

Gertrude: - Só um . ( Lê-o)


“ Olha para mim.

Não sou bonita pois não?

Vê-se. Mas Amei.


Olha para mim.

A Juventude evaporou-se?

Claro. Mas Amei.


Olha para mim.

Estarei ainda viva?

Não. Mas Amei."


Gertrude: A Gertrude com 16 anos escreveu um verdadeiro Evangelho de amor.

Axel: - Lembras-te das tuas palavras : “ A única coisa que importa na vida é amar, amar e nada mais” . Continuas com a mesma opinião? Não estás arrependida de nada?

Gertrude: - Mantenho o que disse. Não me arrependo de nada. Nada mais há na vida do que a juventude e o amor. Axel, um dia às portas da sepultura, debruçar-me-ei sobre o meu passado e poderei dizer a mim própria: sofri muito, enganei-me muitas vezez, mas Amei.

Axel: Pensas muito na morte ?

Gertrude: Já encomendei a minha sepultura e até já tenho o epitáfio.

Axel: O teu nome, suponho?

Gertrude: Não. Lá só escreverão duas palavras : “ AMOR OMNIA” . O Amor é tudo. Sim, o Amor é tudo. E dise ao jardineiro para não plantar nada, só erva. E na Primavera nascerão anémonas. Se passares por lá, colhe uma e pensa em mim e considera-o como uma palavra de amor que foi pensada e nunca pronunciada.

É melhor ires...


( tradução livre de um dos diálogos do filme. Protagonista: Gertrud- Nina Pens Rode)

(Como sempre, ou quase sempre o grande cinema e, neste caso Dreyer, pode ser adquirido em DVD, na excelente "Costa do Castelo Filmes")

4 comentários:

Maria do Carmo Cruz disse...

Existente Instante, fazes-me sentir vergonha de pensar que escrevo bem e com facilidade. Ao pé do que escreveste, o que escrevo é um filme do Indiana Jones ao lado de um de Dreyer. Mas trouxe-me muita Paz o Poema que intercala o diálogo. Porque também eu AMEI. Também eu AMO. E S´sei de um saber cada vez mais profundo que, havendo tantas formas que o Amor toma, uma me basta para assentar o que sinto neste que é já o princípio do ocaso da minha Vida: "A Única Verdde é Amar" (Raoul Foulereau)
Também me inspira muito Santo Agostinho:"Ama e faz o que quiseres". Um abraço profundo, se tal adjectivo se pode juntar a abraço, porque me tocaste no mais profundo de mim. Num dia especial. Especialmente difícil. Obrigada. Carmo

Raul Martins disse...

Mais um desafio que me fazes: conhecer Dreyer. Tu convences-me sempre para novas descobertas. Da maneira como encantas a escrever até "banha da cobra" me eras capaz de fazer comprar.

"AMOR OMNIA"... tudo passa... só o amor permanecerá... e às referências da Irmã Embondeiro acrescento da Carta de Paulo aos Coríntios:
"Ainda que eu fale todas as línguas dos homens e a língua dos próprios anjos, se eu não tiver amor, serei como o bronze que soa ou o címbalo que retine.

Ainda que tenha o dom de profecia, que penetre todos os mistérios, e tenha perfeita ciência de todas as coisas; ainda que tenha toda a fé, até o ponto de transportar montanhas, se não tiver amor, nada serei.

E mesmo que tenha distribuído os meus bens para alimentar os pobres e entregado meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, tudo isso de nada me servirá.

Quero agradecer-te as palavras que deixaste à minha "Pipoca". Conversamos em família sobre o que escreveste. Ela quer responder-te. Vai fazê-lo durante o fim de semana.

Carpe diem.

Um sorriso largo para oa dois.

"pipoca" disse...

Sou a "Pipoca",
o teu nome é muito esquisito! É dificil perceber o que significa e por isso prefiro dizer apenas E.I. como faz o meu pai. Quase que era E.T., sabe o que é não é? Eu gosto muito do filme e ele é simpático.
E aquela do "borracho" teve piada. És muito engraçado. Eu tive que pedir ao meu pai para explicar algumas coisas que escreveste. E percebi quase tudo. Se as árvores são boas os frutos também têm que ser bons, não é.
Eu sei que a tua filha se chama "Trancinhas" e que gosta muito da professora dela pois ela disse que a primavera era o sorriso da professora. Eu também gosto muito da minha professora.
Pronto, já escrevi muito. Eu não gosto muito de escrever. Eu gosto é de Matemática. Muito muito. E o meu pai está aqui comigo a ajudar a escrever estas palavras. Não levas a mal pois não?
Pronto. Um beijinho da "Pipoca".

Maria Lisboa disse...

Que pode uma criatura senão,
entre outras criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Carlos Drummond de Andrade