segunda-feira, 5 de maio de 2008

PORQUE NÃO...

Acontece. No caminho apeado para a escola, numa quarta-feira. Uma turma normalíssima,uma aula de Estudo Acompanhado de reforço da minha disciplina e da unidade didáctica sobre o Barroco, que também sou “filho de Deus”, e esta área curricular não disciplinar não pode ser só suplementos alimentícios de Inglês ou Matemática, ou outras disciplinas, deixando humildemente a minha para calendas gregas. Enriquecimento musical depois de nas aulas de História terem visto filmes e photo story sobre a arte barroca, até porque nunca deixo passar nas minhas aulas a importância da música como reflexo de uma época, de um quotidiano, de uma expressão histórica.

Assim no Creative, uma selecção pedagógica e conhecida de música barroca, que ia desde os conhecidos Vivaldi e a Primavera da Quatro Estações, Albinoni e o seu Adágio, o Cânon de Pachelbel, Lully, Charpentier do Te Deum, o Delalande, Bach, Haendel. Por segurança, um CD, não fossem as minhas colunas amplificadas falhar (como veio a acontecer - ah! A experiência de anos feita!) e mais umas imagens, para num diaporama lhes mostrar que as características gerais da arte barroca também se podiam aplicar à música.

Tudo “como manda a lei” , bem esquematizado na minha cabeça, sem grelhas, nem “timings”, nem previsões de reacções, porque “burro velho” ainda aprende, e sensibilização na aula de História à audição de música tinha sido feita com calma, entusiasmo e humor. Depois, depois, um sorriso interior pela lembrança dessa cena terrível e perturbadora do “Blackboard Jungle” – “Sementes da Violência” em que os alunos destroem a grafonola e a preciosa colecção de vinis de Jazz do Professor que tão amorosamente procurava cativar aquela turma. Sorriso, porque agora os meus alunos mesmo que quisessem mimar, iam ficar aflitos a procurar os Monkeys, os Ogg Vorbis, os Mp3 e mesmo saber onde estava o Creative de tão pequeno que é. Depois ainda, sendo Professor, sou um “destruidor implacável”! Gosto de destruir certezas feitas, ideias pré-concebidas, formatações de gosto. Assim iria ser música barroca e pronto. Depois poderia discutir com eles porque não gosto mesmo nada do Tom , do Bill , do Gustavo e porque gosto de outros “hotéis que não em Tóquio”. Zangadas elas, felizes eles, mas ambos surpresos por um “Prof”, saber quem eram os “bicharocos” um pouco andrógenos que elas tanto gostam e eles tanto odeiam ( ou fingem odiar)! Iria ser Bach, Vivaldi, Haendel, etc. (que acharam pelo retrato terrivelmente feios) e depois falaríamos.

E no caminho para a escola, entre o meio acordado e a “cama atrás”, a ideia. Mandar às malvas o planeado! Porque não!? E se eles reagem mal? E se recusam? E se aquilo se transforma numa galhofa universal? E não seria ridículo? Bem, uma vantagem…os dois primeiros tempos da manhã em que o motor de arranque de muitos alunos por muito que se manivele, tarda a carburar, seria um ponto a meu favor.

Início da aula, aparelhagem pronta, sensibilização feita e, na decisão da caminhada, nada de imagens a ilustrar a música. Seria a música a ilustração de si própria. Depois um pedido e a surpresa geral. Querem experimentar uma coisa? Porque não deitar a cabeça entre os braços e deixar a música que vão ouvir fluir pelos vossos sentidos? Porque não tentaram “sentar-se” na melodia e deixarem-se ir à desfilada, à aventura, ao sonho? Porque não conversarem com ela, deixar que ela vos diga alguma coisa, algum sentimento, alguma ideia, imagem? Porque não? E depois…depois, porque não, no fim de cada trecho musical, escrever sobre. Sobre o ouvido, o sonhado, o dialogado, a imagem, a conversa interior? A maluquice, o sem sentido do sentido? Não levantam mesmo a cabeça enquanto o extracto de música estiver a tocar, okay? Podemos dormir? E se adormecermos? Questionaram alguns - Tudo bem, podem dormir na aula! Riram. Tentamos? E o Prof O que faz? Também podia fazer o mesmo que nós! Porque não? Mas não preciso de deitar a cabeçorra, senão dormia mesmo.

E aconteceu ! O quê? Escreveram e do bom e do bonito! E gostaram! E no fim, vários alunos: O Prof, pode gravar-nos este disco? Depois...depois fiquei feliz e prometi-lhes escrever este post.

Agora andamos às voltas e maravilhados com a música da Irlanda e o Dia da Europa: Eles são... Os Corrs, Os Cranberries, a Sinead O’Connor, The Dubliners, Os Pogues, and so on! Lembro-me de cada uma, que como se diz na minha terra ...até parecem duas!

3 comentários:

Raul Martins disse...

Estás de volta, estás!
Já posso dormir descansado e feliz.
O meu amigo "prosador" cheio de energia e encanto continua por aqui e ainda bem.
Está de volta!
Carpe diem!

Carmo Cruz disse...

Ai, Existente Instante, que bom reencontrar-te! Vou mais sossegada para a minha outra Gente! Sempre cheio de entusiasmo, a fazer, demolir e reconstruir, que bom ler-te de novo. Sabes qual foi um sonho de que tive de abdicar este ano por causa de Angola? Teria ido fazer a volta do barroco português no Brasil. Bem, estás de volta, começo a conhecer-te, invernas de vez em quando, vale a pena.
Com aqueles olhos que te servem de retrato és suficientemente novo para este TU!
Embora os olhos não tenham idade, quando a gente quer. Um abraço da Carmo

JMA disse...

Está visto! Porque Sim! Abraço.